Gerineldo v88

IGR: 0023. Versión: 88. Rima: í-o+á+ão. Hemistiquios 118.

N/A (facticia)* (Portugal)

Girinaldo, Girinaldo,    pajem de el-rei mui` querido,
bem puderas, Girinaldo,    folgar um dia comigo.
Dizeis vós isso, senhora,    porque eu sou vosso cativo!
Eu não no digo zombando,    que deveras te lo digo.
Quando quereis vós, senhora,    que eu vá pelo prometido?
Entre las dez e las onze,    que el-rei não seja sentido.
`Inda não era sol posto,    Girinaldo adormecido;
`inda não eram trindades,    Girinaldo já erguido.
Calçou sapato de pano,    que de el-rei não fosse ouvido;
foi-se ao quarto da infanta,    deu-lhe um ai, deu-lhe um suspiro.
Retirai-vos, minhas aias,    e assim Deus vos dê marido.
Foram-se os dois para a cama    como mulher com marido.
Acordado toda a noite,    por manhã adormecido,
vede o rei que chama o pajem    que lhe dê o seu vestido.
Girinaldo que não ouve,    alguma tem sucedido;
ou o palácio está roto,    ou sentinela perdido,
ou então `stá Girinaldo    com a princesa dormindo!
Responde-lhe agora um pajem    que é de Girinaldo amigo:
Nunca vossa majestade    dê num home` adormecido!
Vestiu-se el-rei muito à pressa,    leva um traçado consigo,
foi-se ao quarto da infanta,    deixa-o entre os dois metido:
o cabo para a infanta,    para Girinaldo, o fio.
Foi-se a virar Girinaldo,    logo se picou no bico.
Acorda, ó bela infanta,    triste sono tens dormido.
O traçado de teu pai    entre nós está metido.
Vai-te deitar, Girinaldo,    a seus pés muito rendido,
que el-rei tem bom coração,    há-de te casar comigo.
Que eu como filha de benção,    vou receber o castigo.
Vedes ora o bom do rei    dando voltas ao sentido.
Se eu mato a bela infanta,    fica o meu reino perdido;
se mato a Girinaldo,    criei-o de pequenino!
Metê-los-ei numa torre    para lhe dar seu castigo.
Veio a mãe de Girinaldo    o seu filho a visitar,
Filho, quando te eu pari    passei dores e pesar:
com as lágrimas dos olhos,    filho, te estava a lavar,
com os cabelos da cabeça,    filho, te estava a limpar.
E teu pai quando morreu    bem mo deixou no avisar,
enquanto fosses pequeno    de bom castigo te dar;
ao depois que fosses grande    a bom senhor te entregar.
A el-rei te entreguei    que melhor não pude achar.
Dormires com a princesa    de teu senhor natural!
Perdeste a cabeça, filho,    que el-rei ta manda cortar.
Ai meu filho, antes que morras    quero ouvir o teu cantar.
Sim, cantarei, ó mi` madre,    a cantiga do apartar.
«Um dia antes do dia    que é dia de S. João
me meteram nestas grades    para fazer oração.
Aqui estou, pobre coitado,    metido nesta prisão;
nem sei quando o sol nasce,    quando a lua faz serão.»
`Inda não é de manhã,    começa a campa a dobrar;
`inda não é meio-dia,    vão ambos a degolar.
Ao toque de ave-marias    foram ambos a enterrar:
a infanta no altar-mor,    o outro à porta principal.
Na cova da bela infanta    nasce uma árvore real,
na cova de Girinaldo    nasceu um lindo rosal.
E com os ramos que deitavam    foram-se logo abraçar.
El-rei que aquilo viu    mandou-os logo cortar,
a rainha que tal viu    caía logo mortal.
Não me chamem mais rainha,    Rainha de Portugal,
pois apartei dois amantes    que Deus queria juntar.

Otros datos:
Nota del editor de RºPortTOM 2003: Reproduz-se a versão estabelecida por Garrett no respectivo manuscrito autógrafo; -32a Metê-los-ei (sic)

Variantes: -1b tão querido; -2 Se quisesses bem podias / passar a noite comigo; -3b dizei-lo a zombar comigo; entre -10 e -11 Quem está à minha porta, / quem será o atrevido? // --É Girinaldo, senhora, / que vem pelo prometido; -14 Girinaldo, ó Girinaldo, / anda-me dar o vestido; 15-17 Ou Girinaldo é morto / ou traição tem cometido. // --Girinaldo não é morto, / nem traição tem cometido; // Girinaldo, ó senhor, / no palácio está metido; -25 Mata-me com o punhal / senão leva-me contigo. Existe uma outra versão cujos versos deverão ser incluídos a partir de -43: --Canta, canta, ó meu filho, / para haver minha bênção; // canta o que teu pai cantava / na noite de S. João. // --Foge daqui, minha mãe, / não me faças renegar, // que a minha aflição é tanta, / sou capaz de me matar. // --Canta, canta, ó meu filho, / para haver minha bênção; // canta o que teu pai cantava / na noite de S. João. // --Anda ouvir, minha filha, / aquele lindo cantar. // Ou são os anjos no céu, / ou a sereia no mar. // --Não são os anjos no céu, / nem a sereia no mar, // é aquele desgraçado / a quem vós mandais matar. // --Pois se é esse infeliz / eu não o mando matar // e se é tua vontade, pode contigo casar.

Bibliografía:
Recogido antes de 1851. Publicada en ms. de Almeida Garrett, incluído en el `Cancioneiro de Romances Xácaras e Solaos`, depositado en la sala Ferreira Lima de la Fac. de Letras de la Universidad de Coimbra, pp. 171-180. Reeditada en RºPortTOM 2003, vol. 3, nº 1203a, pp. 421-423. © Fundação Calouste Gulbenkian.
[0078 El prisionero and 0049 Conde Niño, contam.]