IGR: 0023. Versión: 87. Rima: í-o+á+ão. Hemistiquios 164.
N/A (facticia)* (Portugal)
Reginaldo, Reginaldo, pajem d` el-rei tão querido,
não sei por quê, Reginaldo, te chamam o atrevido.
Porque me atrevi, senhora, a querer o defendido.
Não foras tu tão covarde que já dormiras comigo.
Senhora, zombais de mim porque sou vosso cativo.
Eu não no digo zombando, que deveras te lo digo.
Pois quando quereis, infanta, que vá pelo prometido?
Entre las dez e las onze, que el-rei não seja sentido.
`Inda não era sol-posto, Reginaldo adormecido;
as dez não eram bem dadas, Reginaldo já erguido.
Calçou sapato de pano, que d` el-rei não fosse ouvido,
foi-se à câmara da infanta, deu-lhe um ai, deu-lhe um gemido.
Quem suspira a essa porta, quem será o atrevido?
É Reginaldo, senhora, que vem pelo prometido.
Levantai-vos, minhas aias, que assim Deus vos dê marido
e ide abrir mansinho a porta, que el-rei não seja sentido.
Vela o pajem toda a noite, por manhã é adormecido;
chamava o rei que chamava que lhe desse o seu vestido.
Reginaldo não responde, alguma tem sucedido!
Ou está morto o meu pajem, ou grande treição há sido.
Responderam os vassalos, que tudo tinham sentido:
Morto não é Reginaldo, de sono estará perdido.
Vestiu-se el-rei muito à pressa e leva um punhal consigo,
vai correndo sala e sala, abrindo porta e postigo,
chega ao camarim da infanta, entrou sem fazer ruído.
Dormiam tão sossegados como mulher e marido,
de nada do que se passava de nada davam sentido.
Acudiram os vassalos, que viram a el-rei perdido.
Nunca vossa majestade mate um home` adormecido.
Tira el-rei seu punhal de oiro, deixa-o entre os dois metido,
o cabo para a princesa, para Reginaldo o bico.
Ia-se a virar o pajem, sentiu cortar-se no fio.
Acorda já, bela infanta, triste sono tens dormido!
Olha o punhal de teu pai que entre nós está metido.
Cal`-te daí, Reginaldo, não sejas tão dolorido;
vai já deitar-te a seus pés, que el-rei é bom e sofrido.
Para o mal que temos feito não há senão um castigo;
mas se el-rei mandar matar-te, eu hei-de morrer contigo.
Donde vens, ó Reginaldo? Senhor, de caçar sou vindo.
Que é da caça que caçaste, Reginaldo o atrevido?
Senhor rei, da caça venho, mas não a trago comigo,
que o trazer caça real a vassalo é defendido.
Só vos trag uma cabeça, a minha: dai-lhe o castigo.
Tua sentença está dada, morrerás por atrevido.
Vedes ora o bem rei dando voltas ao sentido.
Se mato a bela infanta, fica o meu reino perdido.
Para matar Reginaldo, criei-o de pequenino.
Metê-lo-ei numa torre por princípio de castigo.
Dizei-me vós, meus vassalos, pois tudo tendes ouvido,
que mais justiça faremos neste pajem atrevido?
Respondem os condes todos e muito bem respondido:
Pajem de rei que tal faz tem a cabeça perdido.
Já o metem numa torre, já o vão encarcerar.
Mas ano e dia é passado e a sentença por dar.
Veio a mãe de Reginaldo o seu filho visitar.
Filho, quando te pari com tanta dor e pesar,
era um dia como este, teu pai estava a expirar.
Eu com as lágrimas dos olhos, filho, te estava a lavar;
cabelos desta cabeça, com eles te fui limpar
e teu pai já na agonia, que me estava a encomendar:
enquanto fosses piqueno de bom ensino te dar
e depois que fosses grande a bom senhor te entregar.
Ai de mim, triste viúva, que te não soube criar!
A el-rei te dei por amo, que melhor não pude achar;
tu vais dormir co` a infanta de teu senhor natural!
Perdeste a cabeça, filho, que el-rei ta manda cortar.
Ai, meu filho, antes que morras, quero ouvir o teu cantar.
Como hei-de eu cantar, mi madre, se me sinto já finar?
Canta, meu filhinho, canta, para haver minha bênção,
que me estou lembrando agora de teu pai nesta prisão.
Canta-me o que ele cantava na noite de S. João,
me encerraram nestas grades para fazer penação
e aqui estou, pobre coitado, metido nesta prisão,
que não sei quando o sol nasce, quando a lua faz serão.
De suas varandas altas el-rei estava a escutar;
já se vai onde a princesa, pela mão a foi buscar.
Anda ouvir, ó minha filha, este tão lindo cantar,
que, ou são os anjos no céu, ou as sereias no mar.
Não são os anjos no céu, nem as sereias no mar,
mas o triste sem ventura a quem mandais degolar.
Pois já revogo a sentença e já o mando soltar;
prende-o tu, infanta, agora, pois contigo há-de casar.
Notas e variantes de Almeida Garrett: -2a A lição da Estremadura e muitas outras omitem estes seis versos e completam a primeira copla com estes outros dois: Bem puderas, Reginaldo, / dormir um dia comigo. A adoptada no texto é do Alentejo. -8a Entre la uma e as duas / quando el-rei esteja dormindo -Alentejo. -18a Lá por sobre a madrugada / pede el-rei o seu vestido –Alentejo. -20b Ou traição tem cometido -Estremadura. Ou traição me há cometido -Beira Alta. 21a Acode dali um pajem / que é de Reginaldo amigo. // –Não é morto Reginaldo, / nem traição tem cometido. // –Então está Reginaldo / com a princesa dormindo. -Beira Baixa. -23b Leva um traçado consigo -Estremadura. -29b Dê num home` adormecido –Minho. -35a Vai-te deitar, Reginaldo, / a seus pés muito rendido, // que e-rei tem bom coração / e te há-de casar comigo. -Beira Baixa, Estremadura. -39a Estas três coplas são omissas em todas as lições, salvo na do Alentejo e em uma das do Porto. -48a A lição do Alentejo termina o romance aqui com esta copla: –Levanta-te, ó Reginaldo, / Reginaldo atrevido, // o castigo que te dou / é que sejas seu marido. Quereria o pérfido menestrel pôr um epigrama na boca de sua real majestade? Outra lição da mesma província continua ainda depois: Responderam os vassalos, / que tudo tinham sentido. // –Oh! Quem teria a fortuna / que Reginaldo tem tido! // Até `qui pajem d` el-rei, / agora filho querido! -Alentejo. -53a Só as versões do Ribatejo trazem este episódio da torre. -59b Pensamento favorito dos menestréis populares, que s encontra repetido em muitos dos nossos romances e xácaras. -63b Ensinar -Ribatejo. -68a Mãe minha -Ribatejo. -74b Numa lição ultimamente vinda da Beira Alta vem o epsódio da prisão com mais uma copla neste cantar de preso. Aqui ponho a dita copla por sua singularidade, apesar de se conhecer nela visível interpolação e desarmonia de estilo e sentido. Imagino que será fragmento de outra xácara ou cantiga, segundo tantod se encontram em muitas delas. Tenho aqui dois passarinhos / que me trazem alcanfores; // eles vão e eles vêm / com novas dos meus amores.