IGR: 0189. Versión: 68. Rima: 6+6 estróf.. Hemistiquios 72.
Loulé (c. Loulé, dist. Faro, Algarve, Portugal)
Abre a porta, Ana, abre o teu postigo,
dá-me esse teu lenço que eu venho ferido.
Se tu vens ferido, vinde muito embora,
porque a minha porta não se abre agora.
Abre já a porta, ou só o postigo,
vinde dar esmola ao triste ceguinho.
Qual é o vadio que a estas horas anda?
Estou de anágua branca vou-me já p`r`à cama.
Se tu estás em anágua, mesmo assim te eu quero,
és o meu amor, eu lograr-te quero.
Minha mãe não durma, não queira dormir,
ouvirá o cego cantar e pedir.
Se ele canta e pede dá-lhe pão e vinho,
se ele não quiser siga o seu caminho.
Não quero o seu pão, nem tão-pouco o vinho,
quero que a menina me ensine o caminho.
Pega na tua roca, também no teu linho,
vai ensina ao cego o triste caminho.
Espigou-se a roca, reabriu-se o linho,
vai-te embora, cego, segue o teu caminho.
Anda mais abaixo, anda um poucochinho,
sou curto da vista, não vejo o caminho.
Vai-te embora, cego, vai por essa estrada,
quem quiser criados paga-lhes soldada.
Ande mais, menina, mais até além,
que eu sou muito cego e não vejo bem.
Corramos, corramos, para este altinho,
pois aí vem gente por este caminho.
Adeus minhas casas, adeus minhas terras,
adeus, minha mãe, que tão falsa me eras.
De condes e duques eu fui pretendida,
só de um triste cego me sinto vencida.
Dá as despedidas, se acaso queres dar,
à Virgem Maria que está no altar.
Já vejo terras, também corte minha,
anda p`r`ó palácio e serás rainha.