Ciego raptor v59

IGR: 0189. Versión: 59. Rima: 6+6 estróf.. Hemistiquios 56.

Elvas (c. Elvas, dist. Portalegre, Alto Alentejo, Portugal)

Abram-se essas portas,    fechem-se os postigos;
dê-me cá um lenço,    que venho ferido.
Pois se vem ferido,    venha muito embora,
que as minhas portinhas    não se abrem agora.
Quem te fala, ó Ana?    O que é que sucede?
É um triste cego    que canta e pede.
Pois se canta e pede,    dá-lhe pão e vinho,
diz ao triste cego    que siga o caminho.
Não quero o seu pão,    não quero o seu vinho,
quero que a menina    me ensine o caminho.
Vai, ó minha filha,    sejas bem mandada,
vai co` o triste cego,    ensina-lhe a estrada.
Pega na roca    e também no linho,
vai co` o triste cego,    ensina-lhe o caminho.
Espiei minha roca,    acabei meu linho,
adiante, cego,    além vai o caminho.
Ande, minha filha,    ande mais além,
sou curto da vista,    eu não vejo bem.
Espiei minha roca,    acabei meu linho,
adiante, cego,    além vai o caminho.
Ande mais, filha,    mais um bocadinho,
sou um triste cego,    não vejo o caminho.
Adeus, minha casa,    adeus minha terra,
adeus, minha mãe,    que tão falsa me era!
De condes e duques    já fui pretendida
e agora dum cego    me vejo vencida!
Dou graças a Deus,    à Virgem Maria,
já me veio à mão    o que eu lhe pedia.

Bibliografía:
Recogido antes de 1901. Publicada en Pires 1900-1901a, 226-229 y Pires 1986, 135-136. Reeditada en RºPortTOM 2003, vol. 3, nº 1105, pp. 307-308. © Fundação Calouste Gulbenkian.