IGR: 0180. Versión: 60. Rima: á-a. Hemistiquios 28.
Matela (c. Vimioso, dist. Bragança, Trás-os-Montes, Portugal)
Vozes dava o marinheiro, vozes dava, que se afogava.
Arrespondeu-le o mau demónio das outras bandas da água:
Quanto deras, marinheiro, a quem da água te tirara?
Dava o meu navio, carregado de prata lavrada.
Eu não quero o teu navio, nem tão-pouco a tua prata,
só quero que, em morrendo, me deixes a tua alma.
A minha alma não ta deixo, que é para a Virgem Sagrada;
meu corpo é para os peixes que andam na água salgada;
as tripas são para os cegos, para cordas de guitarra;
as pernas para os aleijados, para que sigam na jornada;
os braços aos soldados, para que joguem a espada;
a cabeça para as formigas, para que nela façam morada;
as calças deixo-as ao cura e o casaco à criada,
quando eis estiverem a rezar, que me peçam pela alma.