IGR: 0164+0100. Versión: 35. Rima: í-a. Hemistiquios 80.
Trás-os-Montes e Alto Douro s. l. (Trás-os-Montes, Portugal)
A caçar vai cavaleiro, a caçar como sol ia,
seus perros leva cansados, seu falcão perdido ia.
Anoiteceu-lhe na serra, lá numa escura montia,
arrumou-se a um roble mais alto que a penedia.
Lá pelo meio da noite deitou os olhos acima,
viu estar uma donzela, viu estar uma menina;
com seu pente de ouro na mão ela pentear-se queria.
O cabelo da cabeça todo o rosto lhe cobria;
os dentes da sua boca alva neve lhe parecia;
os olhos da sua cara todo o mundo relumbria;
as faces do seu rosto eram rosas d` Alexandria;
nos dedos de suas mãos ricas prendas ela trazia.
Que fazes aí, donzela, que fazes aí, menina?
Estou a cumprir um fado que me deitou a madrinha,
nos braços de minha mãe, quando era pequenina:
que estivesse aqui sete anos, sete anos mais um dia;
ontem acabaram-se os sete, hoje se encerra o dia.
Diz-lhe o cavaleiro com paz e harmonia:
Queres tu, ó donzela, ir na minha companhia?
Eu, pelo ir, sim, queria; mas o mundo que diria?
Queres tu vir, ó donzela, que o mundo se calaria?
Monta aqui no meu cavalo ou na anca, ou na sela.
Na sela, não, cavaleiro, que é grande descortesia;
na anca, sim, cavaleiro, que é honra tua e mi`a.
Sete léguas tinham andado, ele nada lhe dizia.
Por que te ris, ó donzela, por que te sorris, ó menina?
Rio-me do cavaleiro e da sua covardia;
ir a menina no monte e guardar-lhe cortesia.
Volta, volta, meu cavalo, que minha espora hei perdida.
Olá, olá, cavaleiro, não uses de vilania,
se tua espora era de prata, meu pai d` ouro ta daria.
Quem era esse teu pai que tanto ouro teria?
Meu pai era o rei de França, minha mãe, dona Maria.
Pelas novas que me dás, tu és irmana mia.
Abra-me as portas, meu pai, abra-mas com grande alegria,
cuidei que trazia esposa, trago uma irmana mi`a.
Se tu trazes tua esposa, entra já para esses paços;
se trazes irmana tua, deita-ma já em meus braços.
Que comias lá, donzela, que comias, filha mi`a?