IGR: 0113. Versión: 290. Rima: á-a+estróf.. Hemistiquios 83.
Aldeia Galega da Merceana (c. Alenquer, dist. Lisboa, Estremadura, Portugal)
Dona Clara, dona infanta, sentada no seu jardim,
penteando tranças d` oiro com pentes de marafim,
sentada na sua almofada de velude cramezim.
Deitou os olhos ao mar, avistou formosa armada,
cavaleiro que nela vinha, vinha bem ajaezado.
Saltou em terra ele só, com a viseira calada,
foi saudar a dona Infanta que assim triste le falava.
Cavaleiro da cruzada, viste lá o meu marido?
Eu não vi o teu marido, nem sei que sinais levava.
Levava cavalo branco, com sua sela doirada,
à ponta da sua espada, um laço de fita encarnada,
um cordão do meu cabelo que lhe prendia a espada.
Sou soldado, ando na guerra, nunca o teu marido vi.
Mas quanto me déreis, senhora, se eu to trouxera aqui?
Dera-te oiro e prata, que não tem conta nem fim,
e as telhas do meu telhado, são todas de marafim.
Eu não quero as tuas telhas, que me não pertencem a mim,
sou soldado, ando na guerra, não posso morar aqui.
Quanto me déreis, senhora, se eu to trouxera aqui?
Dera-te o meu tear d` oiro, roca de prata polida.
Não quero o teu tear d` oiro, com ferro minha mão lida.
Sou soldado, ando na guerra, nunca o teu marido vi.
Mas quanto me déreis, senhora, se eu to trouxera aqui?
Três filhas que Deus me deu, todas tas dera a escolher,
são formosas como a lua, como o sol ao amanhecer.
Eu não quero as tuas filhas, que não me podem pertencer,
sou soldado, ando na guerra, nunca o teu marido vi.
Mas quanto me déreis, senhora, se eu to trouxera aqui?
Não tenho mais que te dar, nem tu mais que me pedir.
Ainda tens mais que me dar; não me estejas a mentir!
O teu leito d` oiro fino, que eu nele queria dormir.
Cavaleiro que tal dizes, devias ser arrastado,
à roda do meu jardim, aos pés do meu cavalo atado.
Vinde cá, criados meus, castigai este soldado.
Não chames os teus criados, que criados são de mim.
Para ver se eras leal é que eu disfarçado vim.
Não te lembras, dona Clara, [. . . . . . . . . . . . . . . . . . .]
do anel de sete pedras que contigo reparti?
Se as tuas não perdeste, as minhas, ei-las aqui.
Vinde, vinde, minhas filhas, vosso pai já é chegado,
abri as portas do jaspe que há muito estão fechadas.
Folgai, folgai, meus vassalos, que é dona Infante a meu lado.