IGR: 0457. Versión: 29. Rima: á. Hemistiquios 54.
Portugal s. l. (Portugal)
Já lá vão pelo mar fora, já não têm que comer,
deitaram sortes à vida qual havia de morrer;
qual havia de morrer, qual haviam de matar,
caiu a sorte em preto no capitão-general.
Arriba, arriba, gajeiro, aceita o tope real,
vê se vês terras de Espanha, areias de Portugal.
Não vejo terras de Espanha, areias de Portugal,
vejo três espadas nuas que nos vêm a matar.
Arriba, arriba, gajeiro, aceita o tope real;
onde tu não puderes ir, Deus te há-de ajudar.
Palavras não eram ditas, já espírito cai no mar.
Alvíssaras, meu capitão, meu capitão-general,
já vejo terras de Espanha, areias de Portugal;
`inda vejo três meninas debaixo dum salgueiral:
uma cose, outra faz renda, outra busca o seu dedal.
Essas três filhas são minhas, todas três tas quero dar:
uma para te vestir, outra para te calçar,
a mais bela delas todas para contigo casar.
Não lhe quero as suas filhas, que custaram a criar,
quero só a nau dos Quintos para no mar navegar.
Não te dou a nau dos Quintos, que é de el-rei de Portugal;
em chegando a Lisboa, logo lha vou entregar;
mas dou-te tanto dinheiro que não o saibas contar.
Não lhe quero o seu dinheiro, que lhe custou a ganhar,
quero só a nau dos Quintos para no mar navegar.
Um gajeiro que tal diz merece ser arrastado
ao redor do meu jardim, ao rabo do meu cavalo.