IGR: 0233. Versión: 39. Rima: é-a. Hemistiquios 60.
Argozelo (c. Vimioso, dist. Bragança, Trás-os-Montes, Portugal)
No alto daquela serra, naquela serra mais alta
anda lá uma serrana que é o estrago desta terra.
Traz espingarda ao ombro à moda de caçador,
quando lhe dão ganas d` homes vai-se banhar ao Sabor.
Vira andar um pastorinho com seu rebanho d` ovelhas,
saltando de fraga em fraga, acercando se foi dela.
Queres tu, ó pastorinho, comigo ir para a serra?
Eu bem iria, senhora, se meu gado me guardera.
O teu gado, pastorinho, eu to hei-de arresponsar,
vem comigo para a serra, deix`-o aí estiar.
De subir tão grande costa cansado deves estar,
junto da fonte florida, ambos vamos descansar,
os instrumentos tocar e os anjos ouvir cantar,
e até adormecer enquanto o gado estiar.
Perguntara-lhe a serrana qual dos dois sabia amar.
Pastorinho respondeu: Eu sei meu gado guardar,
é muito estranho, senhora, tanta cruz neste lugar!
Trezentos homens hei morto onde cresce a urge alvar,
e tu também morrerás se não souberes amar.
Um tocava a rabeca, outro tocava a vírola,
e o pastor tão lindamente, que a donzela adormecera;
porém quando recordara o sol descendo já ia,
e o pastorinho inocente daquela serra fugia.
Volta atrás, ó pastorinho, cá te ficou uma borrega;
Nem que me ficassem todas atrás não volto por ela.
E aquela ferra serrana, mais irada que uma fera,
atirou-le uma pedrada e derribou-le a montera.
Ó senhor corregedor anda aquela serra,
anda lá uma serrana que é o estrago desta terra;
é filha dum ferro moiro e duma castanha éuga.