IGR: 0023. Versión: 123. Rima: í-o. Hemistiquios 54.
Mexilhoeira Grande (c. Portimão, dist. Faro, Algarve, Portugal)
Genaraldo, Genaraldo, pajem d` el-rei mais querido,
bem podes tu, Genaraldo, dormir um sono comigo.
[. . . . . . . . . . . . . . . . . . .] ou está zombando comigo.
Eu não zombo, Genaraldo, é deveras que te eu digo;
entre as dez e as onze já meu pai é dormido.
`Inda as dez não eram dadas, Genaraldo d` amor estava perdido.
Aqui estou, minha senhora, que venho ao seu serviço.
Dá de mão esse bastão e vem a deitar-te comigo;
de beijinhos e abraços serás muito bem servido;
outras graças não t` ofereço, que isso corre grande p`rigo.
O rei, que acordava do seu sono já dormido,
disse: –Levanta-te, Genaraldo, vem-me dar o meu vestido.
Ou Genaraldo é morto ou novidade há em palaiço.
Andou de quarto em quarto e de bostigo em bostigo,
foi ao quarto da infanta, estava como mulher com marido.
Eu, se mato Genaraldo, crii-o de pequenino;
se mato a infanta, tenho o meu reino perdido.
Apegou na sua espada, entre um e outro deixou metida.
A infanta, que acordava do seu sono já dormido,
disse: –Levanta-te, Genaraldo, [. . . . . . . . . . . . . . . . . . .]
que o nosso amor em palaiço já de meu pai é sabido.
Enjoelha-te aos pés de meu pai e chora como em pequinino,
meu pai não é tão mau que não te case comigo.
Perdoe-me, el-rei, meu pai, perdoe-me, el-rei, meu querido.
Levanta-te, Genaraldo, que foste muito atrevido,
`inda ontem eras meu vassalo, já és meu genre querido.
Sou filho do rei de Espanha e neto do rei d` Hungria.
Se eras filo de gente real, Genaraldo, porque mo não dizias?