Gerineldo v122

IGR: 0023. Versión: 122. Rima: í-o. Hemistiquios 64.

Loulé (c. Loulé, dist. Faro, Algarve, Portugal)

Girinaldo, Girinaldo,    pajem d` el-rei, o mais qu`rido.
bem podias, Girinaldo,    dormir à noite comigo.
A senhora está brincando,    ou quer caçoar comigo?
Eu não caçôo, Girinaldo,    eu bem deveras to digo.
Diga a senhora a que horas    hei-de vir ao seu serviço.
Vem lá das dez par` às onze,    que meu pai esteja dormindo.
A hora certa que dava,    Girinaldo que chegava.
Quem é esse cavalheiro    que as portas está abrindo?
É, senhora, Girinaldo    que é chegado ao serviço.
Dá-me de mão a essa porta    e vem deitar-te comigo.
El-rei que bem os ouvira,    logo da cama descera,
de sapatinho calçado    a muitas portas batera.
Foi ao quarto da princesa    viu Girinaldo e a filha
de rosto com rosto unido,    como mulher e marido.
Eu se mato Girinaldo,    Girinaldo é meu amigo,
eu se mato la infanta fica    o reinado perdido.
Aí fica o meu punhal    entre um e outro metido.
Acorda, meu Girinaldo,    o nosso sono é sabido:
vê o punhal de meu pai    entre um e outro metido.
Girinaldo qu` isto ouviu    ficou mui` desmorecido.
Não te aflijas, Girinaldo,    não sejas desmorecido,
vai-te aos pés do meu pai    e chora de arrependido.
O meu pai não é tão mau    que te não case comigo.
Donde vens, ó Girinaldo,    donde vens espavorido?
Aos vossos pés, meu senhor,    venho buscar o castigo.
Nunca pensei, Girinaldo,    que fosses tão atrevido!
`Inda ontem meu vassalo,    já hoje meu genro qu`rido.
Eu sou um vassalo vosso    mas de linhagens reais,
sou filho do rei de Espanha,    neto do rei de Cascais,
sobrinho do Padre Santo,    que quereis que eu seja mais?
Se és filho do rei de Espanha,    neto do rei de Cascais,
sobrinho do Padre Santo,    agora te quero mais.

Bibliografía:
Recogido antes de 1905. Publicada en Athaide Oliveira 1905, (y Athaide Oliveira 1987?) 34-36. Reeditada en RGP I 1906, (reed. facs. 1982) 189-191; RTLH 6-8 (1975-1976), 66-67; Anastácio 1985, 238 y RºPortTOM 2003, vol. 3, nº 1237, pp. 452-453. © Fundação Calouste Gulbenkian.