IGR: 0260. Versión: 1. Rima: estróf.. Hemistiquios 66.
Minho s. l. (Minho, Portugal)
Rapazes, vos vou contar tempos da minha mocidade;
em tudo fui infeliz, até na própria amizade.
Eu amava uma menina, era órfã, não tinha pai;
era uma pomba sem fel, vivia com sua mãe.
A sua mãe não queria que a filha amores tivesse:
namorava às escondidas para que a mãe não soubesse.
Assim andou sete meses sem haver novidade,
mas ao fim desses sete meses Deus lhe deu uma enfermidade;
uma moléstia que andava, chamada a febre amarela,
que ao espaço de três dias toma a morte posse dela.
Ela não podia morrer sem se despedir do amor;
chamou a mãe à cabeceira e lhe pediu com grande dor:
Minha mãe do coração, peço-lhe com grande dor:
não posso dar a alma a Deus sem me despedir do amor.
Sua mãe lhe preguntou onde é que ele morava;
ela tudo isso lhe disse, até como se chamava.
Ele chamava-se Antoninho, mora na Rua do Almada.
Mandou logo a criada logo nesse mesmo dia:
Venha ver a sua amada, que está na última agonia.
Eu, como nada sabia, sobressaltado fiquei;
deitei as mãos ao chapéu, a criada acompanhei.
Cheguei ao meio das escadas, estava tudo esmorecido;
estavam as janelas fechadas e lá dentro grande gemido.
Subi pelas escadas acima, no quarto dela entrei;
em tal estado a vi, só isto lhe preguntei:
Mandaste-me chamar? –Mandei. Ó minha pomba sem fel,
para te ver batalhar com a negra morte cruel?
Apertou a mão na minha, nem mais uma palavra deu;
virou-se para o outro lado, deu um suspiro e morreu.
Como hão-de agora ficar dois corações aflitos,
o meu e o da mãe dela, chorando em altos gritos?
Ó morte, tirana morte, contra ti tenho mil queixas:
quem hás-de levar não levas, quem hás-de deixar não deixas.