Conde Alarcos v124

IGR: 0503. Versión: 124. Rima: í-a. Hemistiquios 96.

Lagos (c. Lagos, dist. Faro, Algarve, Portugal)

`Inda agora vim da corte    el-rei manda-me chamar.
É para me fazer mercês    ou para me mandar matar?
Aqui `stou às vossas ordens,    também ao vosso mandar,
é para me fazer mercês,    ou p`ra me mandar matar.
Não p`ra te fazer mercês,    nem p`ra te mandar matar.
É p`ra matar a condessa    p`ra casares com minha filha.
Eu não mato a condessa    porque a morte não mer`cia.
Mandarei po-la numa torre    que nem lua nem sol veria.
Vai já matar a condessa    p`ra casares com minha filha.
Eu não mato a condessa    porque ela a morte não mer`cia.
Mandarei-a p`ra casa dos seus pais    qu` eles logo a aceitariam.
Vai matar a condessa    p`ra casares com minha filha,
e traz-me aqui a cabeça    nesta doirada bacia.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . .    Dali saiu com grande agonia.
As lágrimas eram tantas    que pela rua corriam,
os suspiros eram tantos    que o castelo adormeciam.
Conta, bom conde, à condessa,    todas as tuas agonias
. . . . . . . . . . . . . . . . . . .    como contavas as alegrias.
Mandai vós pôr a mesa,    qu` eu logo vos contaria.
Ó criados e criadas,    estejam todos ao meu mandar,
vão já pôr a mesa    p`ra o bom conde ir jantar.
Todos dois foram para a mesa,    nem um nem outro comiam,
os suspiros eram tantos    que o castelo adormeciam,
e as lágrimas eram tantas    que pela mesa corriam.
Conta, bom conde,    à condessa, as tuas agonias
. . . . . . . . . . . . . . . . . . .    como contavas as alegrias.
Mandai vós fazer a cama    qu` eu logo vos contaria.
Ó criados e criadas,    estejam todos ao meu mandar,
vão já fazer a cama    para o bom conde se deitar.
Todos dois foram p`r`à cama    nem um nem outro dormiam,
as lágrimas eram tantas    que pela cama corriam,
e os suspiros eram tantos    que o castelo adormeciam.
El-rei te manda matar    p`ra eu casar com a filha.
Manda-me pôr numa torre    que nem sol nem lua veria.
Tudo isso lhe eu disse,    a nada disso obedecia.
Manda-me p`ra casa dos meus pais    qu` eles logo m` aceitariam
Tudo isso eu lhe disse,    nada disso obedecia;
que levasse a tua cabeça    nesta maldita bacia.
Dá-me cá aquele menino,    aquele mais pequenino.
Mama, mama, meu menino,    não deixes uma pinguinha,
porque `inda hoje tindes mãe    . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
amanhã terás madrasta    da mais alta senhoria.
Dá-me cá aquele tinteiro    e aquela escrivaninha,
que quero escrever a mi madre    a desgraça desta filha.
Permita Deus d` Arcelo    ma` la Sagrada Maria
que el-rei não viva uma hora    nem a princesa sua filha.
Já os sinos dobravam,    e toda a gente admirava.
O que é isto? O que não é?    . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
É el-rei de Marrocos    e a princesa sua filha
que quer desapartar casais,    cousa que Deus não queria.
Variantes: -6b casar (1900-1901); -7b, -10b qu` ela a morte (1900-1901); -8b mandarei-a pôr numa(1900-1901); -9a omite já (1900-1901); -11a p`ra à dos (1900-1901); -12b casar (1900-1901); -18b, -26b d` alegria (1900-1901); -19b, -27b qu` eu vos logo (1900-1901); -20b., -28b os que estão ao (1900-1901); -21a, -29a vão, vão (1900-1901); -22b comia (1900-1901); -24a as (1900-1901); -25b todas as tuas (1900-1901); -30b dormia (1900-1901); -32a, -42a omite e(1900-1901); -33a El-rei manda-te (1900-1901); -33b p`ra casar com sua (1900-1901); -36a p`ra a dos (1900-1901); -38a levasse-lhe a cabeça (1900-1901); -40a Mame, mame (1900-1901); -40b deixe nem uma pinga (1900-1901); -41a que `inda (1900-1901); -42a e amanhã (1900-1901); -42b de (1900-1901); -43a Dá cá além aquele (1900-1901); -44a omite que (1900-1901); -45a Oh permita (1900-1901); -46b nem princesa dona Maria (1900-1901); -47b toda a gente se admirava (1900-1901); -49a Morreu el-rei (1900-1901); -49b e princesa (1900-1901).    

Otros datos:
Nota del editor de RºPortTOM 2001: Editamos Athaide Oliveira 1905 (y Athaide Oliveira 1987?) 284-286 por reproduzir o manuscrito autógrafo de Nunes.

Bibliografía:
Recogido antes de 1901. Publicada en Nunes 1900-1901, 159-161. Reeditada en Athaide Oliveira 1905, (y Athaide Oliveira 1987?) 284-286; Anastácio 1985, 184-185 y RºPortTOM 2001, vol. 2, nº 763, pp. 461-462. © Fundação Calouste Gulbenkian.