Conde Alarcos v125

IGR: 0503. Versión: 125. Rima: í-a. Hemistiquios 138.

Loulé s. l. (c. Loulé, dist. Faro, Algarve, Portugal)

Ergueu-se dona Silvana    uma vez do seu jantar,
com a viola no braço    par` ó jardim foi tocar.
Que tendes, dona Silvana?    Que tendes, ó filha minha?
Raparigas dos meus anos    são casadas, têm família,
eu que sou a mais formosa    par` um canto ficaria.
Casa-te, dona Silvana,    casa-te, ó filha minha.
Não tenho com quem me case    nem pessoa igual à minha.
Só se for o conde Alberto,    ele se descasaria.
Eu lo mandarei chamar    ao meu palácio em um dia.
Mandaria já chamá-lo    da sua parte e da minha.
Alto, alto, ó meus criados,    todos já ao meu mandado!
Vão chamar o conde Alberto    ao meu palácio real.
Anda cá, ó conde Alberto,    el-rei te manda chamar,
que vás já ao seu palácio,    ao seu palácio real.
`Inda agora eu vim da côrte,    el-rei me manda chamar.
Será para me dar tença    ou p`ra me mandar matar?
Aqui estou, ó Vossa Alteza,    venha cá a senhoria.
Quero que mates a condessa    e cases com minha filha.
Eu a condessa não mato,    ela a morte não mer`cia.
Mata, conde, a condessa,    não uses de mais porfia.
Eu a condessa não mato,    ela a morte não mer`cia.
Mando-a p`ra seu pai    e nunca mais me veria.
Mata, conde, a condessa,    não uses de mais porfia.
Eu a condessa não mato,    ela a morte não mer`cia.
Mando-a par` um convento    e nunca mais me veria.
Mata, conde, a condessa,    não uses de mais porfia
Eu a condessa não mato,    ela a morte não merc` ia.
Mando-a par` umas brenhas    manjar dos bichos seria.
Mata, conde, a condessa,    não uses de mais porfia
e dela traze a cabeça    nesta dourada bacia.
Volta o conde par` ò palácio,    par` ò palácio voltaria.
Portas e janelas fechara,    cousa que nunca fazia.
Manda vestir os criados    de luto à maravilha.
Manda pôr a sua mesa,    só p`ra fingir que comia,
com lágrimas dos seus olhos    todos los pratos enchia,
os suspiros que ele dava    em o palácio se ouviam.
Desceu a condessa abaixo,    que ela de nada sabia.
Que tendes, ó conde Alberto?    Que tendes, ó vida minha?
Conta-me as tuas paixões    como contas as alegrias.
Eu as paixões que tenho,    na cama te as contaria.
Pegando-lhe pela mão    p`r`à sua cama a levaria.
As lágrimas dos seus olhos    p`la cama correriam,
e os suspiros que ele dava    em o palácio se ouviam.
Que tendes, ó conde Alberto?    Que tendes, ó vida minha?
Conta-me as tuas paixões    como contas as alegrias.
Eu as paixões que tenho    no jardim te as contaria.
Pegando-lhe pela mão    ao jardim a levaria.
As lágrimas dos seus olhos    pegos no jardim fariam,
os suspiros que ele dava    em todo o jardim se ouviam.
Que tendes, ó conde Alberto?    Que tendes, ó vida minha?
Conta-me as tuas lágrimas,    por Deus e Santa Maria.
As tristezas que ele tinha    encobri-las não podia.
Manda-me el-rei que te mate    p`ra casar com sua filha.
Cala-te, ó conde Alberto,    que remédio te daria,
vou p`ra casa de meu    que ele me aceitaria.
Isso mesmo lhe disse eu,    ele só me respondia:
«Quero ver-lhe a cabeça    numa dourada bacia».
Não disseste que um convento    mui bem me albergaria,
e metida numa cela    p`ra sempre lá ficaria?
Isso mesmo lhe disse eu,    ele só me respondia:
«Quero ver-lhe a cabeça    numa dourada bacia».
Não disseste numas brenhas    eu de todo ficaria,
entre os bichos e mais feras,    ali mesmo morreria?
Isso mesmo lhe disse eu,    ele só me respondia:
«Quero ver-lhe a cabeça    numa dourada bacia».
Palavras não eram ditas    sino da Sé tocaria.
Ai Jesus, ai, quem morreu?    Ai Jesus, quem morreria?
Já morreu el-rei, o pai,    também Silvana, su filha,
apartar qu`riam casais    coisa que Deus não qu`ria.

Otros datos:
Nota del primer editor: Nas lições de Loulé encontrei alguns versos que no meu entender representam sofisticações modernas. Expurguei-as dali; no entanto, como este meu trabalho tem simplesmente em vista fornecer aos entendidos nestes assuntos os materiais por mim encontrados nesta província e de que os sábios se servirão para construir os monumentos de arte, vou indicar quais foram os versos que eliminei e que figuram quase no final de uma ou outr das lições: --Não me matem com um ferro, / que dum ferro eu tremeria,//num laço dos meus cabelos / eu mesmo me mataria.//Adeus, adeus, meu jardim, / lá onde me divirtia,//adeus, criados fieis, / que muito bem me serviam,//adeus, adeus, conde Alberto, / claro sol e luz do dia,//adeus, adeus, conde Alberto, / minha doce companhia.//Adeus, adeus, conde Alberto, / lindo espelho onde me via.//Dá-me cá o nosso filho, / eu de mamar lhe daria.//Mama, mama, meu filhinho, / este leite amargurado,//agora ainda tens mãe, / amanhã estarei no adro.//Mama, mama, meu filhinho, / este leite de amargura,//hoje ainda tu tens mãe, / amanhã na sepultura.//Mama, mama, meu filhinho, / este leite de agonia,//amanhã terás madrasta / da mais alta fidalguia.//(Athaide Oliveira 1905 [y Athaide Oliveira 1987?] 323-324).

Bibliografía:
Recogido antes de 1905. Publicada en Athaide Oliveira 1905, (y Athaide Oliveira 1987?) 60-64 e 323-324. Reeditada en RGP I 1906, (reed. facs. 1982), 515-519; Anastácio 1985, 186-187 y RºPortTOM 2001, vol. 2, nº 764, pp. 462-465. © Fundação Calouste Gulbenkian.