IGR: 0231. Versión: 58. Rima: ão+á. Hemistiquios 150.
Madeira s. l. (Madeira, Portugal)
Ai que guerras vão armadas entre França e Aragão!
Ai de mim, qu` ê já sou velho, já nã posso vencer, não!
De sete filhas qu` ê tenho, e nenhuma ser varão!
Me respondeu a mais nova, respondeu-me com razão:
Venh` uma espada e um cavalo, qu` ê serei já capitão.
Minha filha, tu nã vais p`r`às guerras de Dom João.
Por mê pai ê vou, sim, por outro nã vou ê, não.
Tendes os tês cabelos longos, filha, conhecer-vos-ão.
Venh` uma tesoura d` oiro, vê-los-eis cair ao chão.
Tens os olhos pequeninos, filha, conhecer-vos-ão.
Quand` ê passar pelos homes, os inclinarei ao chão.
Tendes os tês ombros altos, filha, conhecer-vos-ão.
Venha p`ra cá uma `spada do mê bravo capitão,
porque s` ela for pesada os ombros abaixarão.
Tendes as mãos muito finas, filha, conhecer-vos-ão.
Virá calmas e geadas, qu` as mãos negras ficarão.
Tendes o tê peito alto, filha, conhecer-vos-ão.
Venha p`ra cá uma farda do mê próprio capitão,
porque s` ela ficar justa, os peitos esconderão.
Tendes o pé pequenino, filha, conhecer-vos-ão.
Venham os sapatos grandes, qu` os pés neles crescerão.
Tendes o passinho miúdo, filha, conhecer-vos-ão.
Quand` ê passar pelos homes, darei passo de malhão.
Adeus, casa de mê pai, peço-lh` a sua benção,
qu` eu agora vou p`r`à guerra, p`r`à guerra de Dom João.
Adeus, casa de mê pai, qu` eu agora vou-m` embora;
deite-m` a sua benção, e que seja em boa hora.
Adeus, casa de mê pai, adeus, fonte d` água fria,
ond` ê lavava o mê rosto todas as horas do dia.
Os olhos de Dom Martinho, minha mãe, matar-me-ão;
o corpinho será d` homem, olhinhos de mulher são.
Convida-a tu, mê filho, um dia para . . . . . . tomar,
que se ela mulher for, ao agro se há-d` apegar.
Dom Martinho, de avisado, ao doce se foi lançar.
Oh que doce para homem, para no mê copo tomar!
Convida-a tu, mê filho, um dia para jantar,
que s` ela for mulher no mais baixo se há-de sentar.
Dom Martinho, de avisado, o mais alto mandou achegar.
Oh que banco tão pequeno par`uma dama se sentar!
Oh que banco para homem, par`ò mê corpo descansar!
Os olhos de Dom Martinho, minha mãe, matar-me-ão;
o corpinho será d` homem, olhinhos de mulher são.
Convida-a tu, mê filho, p`ra ir ao jardim das flores;
s` agrada das mais bonitas se ela mulher for.
Dom Martinho, de avisado, às rosas se foi lançar.
Oh que rosas para homem, p`ra no meu peito trajar!
Oh que cravos para as damas, quem lhas fosse lá levar!
Convida-a tu, mê filho, p`ra ir à loja das fitas,
que se ela mulher for, se agrada das mais bonitas.
Dom Martinho, de avisado, as fitas mandou chegar.
Oh que fitas para os laços, para no mê peito trajar!
Convida-a tu, mê filho, uma dia para dormir,
que se ela mulher for, não se há-de querer despir.
Dom Martinho, de avisado, se foi logo descalçar.
O rei, de muito sabido, logo se foi deitar,
e só ao amanhecer é qu` ele foi acordar.
Tenho feito juramento, espero de não quebrar,
enquanto andar na guerra, a camisa não tirar.
Tenho feito juramento, espero de o cumprir,
enquanto andar na guerra, as ceroulas não despir.
E a espada de mê pai entre nós há-de dormir.
Os olhos de Dom Martinho, minha mãe, matar-me-ão;
o corpinho será d` homem, olhinhos de mulher são.
Convida-a tu, mê filho, um dia para nadar,
que se ela mulher for, no calhau fica a bradar.
Dom Martinho, de avisado, se foi logo descalçar
e o rei, por saber muito, logo se deitou no mar.
O que tendes, Dom Martinho, que `tás no calhau a bradar?
Porque o mê pai era morto, minha mãe par` enterrar;
os sinos da minha terra aqui os ouço tocar.
E^ sou a pobre donzela, se comigo queres casar.
Abre-m` as portas, mê pai, de todo o sê coração.
Sete anos e um dia na guerra de Dom João,
sem ninguém me conhecer, nem o próprio capitão.
Conheceu-me pelos olhos, por outra coisa já não.