Ciego raptor v56

IGR: 0189. Versión: 56. Rima: 6+6 estróf.. Hemistiquios 72.

Castelo Branco (c. Castelo Branco, dist. Castelo Branco, Beira Baixa, Portugal)

Era meia-noite    quando o pobre veio,
deu três pancadinhas    à porta do meio.
Abra-me essas portas,    feche-se o postigo,
empreste-me um lenço,    que eu já venho f`rido.
Se você vem f`rido,    vá-se já embora,
que as minhas portinhas    não se abrem agora.
Qual é o vadio    que a tal hora anda?
Eu `stou em naguilhas    para me ir à cama.
Se está em naguilhas,    mesmo assim a quero.
Eu sou seu benzinho,    por você espero.
Acorde, ó mãe,    se está a dormir.
Venha ouvir o cego,    o que vem pedir.
Se ele pede pão,    dá-lhe também vinho.
Se ele não quiser,    que siga o caminho.
Não quero o seu pão,    nem também seu vinho.
Quero que a menina    me ensine o caminho.
Agarra na roca,    não te esqueça o linho;
vai ensinar, Ana,    o triste ceguinho.
Lá, mais adiante,    o linho acabava.
E o triste ceguinho    que bem que enxergava!
Ai! Valha-me Deus    e a Virgem Maria!
Eu nunca vi cego    com tanta alegria.
Oh! Chegue a menina    até mais além.
Sou curto da vista,    não enxergo bem.
Adeus, minha casa,    adeus, minha terra,
adeus, minha mãe,    que tão falsa me era.
Chegue a menina    mais adiantinho.
Sou curto da vista,    não vejo o caminho.
Adeus, minha terra,    adeus, olivais,
adeus, pai e mãe,    para nunca mais!
Que luz é aquela    que além `stá a brilhar?
São os meus criados    que te vêm buscar.
Assenta-te, ó Ana,    nesta cadeirinha.
Já foste pastora,    vais a ser rainha.
Adeus, minha casa,    meu amor primeiro,
lá ficou co` as chaves    o meu jardineiro.

Otros datos:
Nota de Diogo Correia: -8a Anágua.

Bibliografía:
Recogido antes de 1938. Publicada en Correia 1938?, 36-37 y Correia 1953, 125-126. Reeditada en RºPortTOM 2003, vol. 3, nº 1102, pp. 304-305. © Fundação Calouste Gulbenkian.