IGR: 0189. Versión: 53. Rima: 6+6 estróf.. Hemistiquios 61.
Póvoa da Atalaia (c. Fundão, dist. Castelo Branco, Beira Baixa, Portugal)
Era meia-noite quando o ladrão veio,
deu três pancadinhas à porta do meio.
Escute, ó minha mãe, escute, se quer ouvir
um triste ceguinho à porta a pedir.
Qual é o vadio que a esta hora anda?
Eu estou im anágua, quero-me ir à cama.
Se está em anágua, mesmo assim a quero.
Venha daí, menina, que eu por si espero.
Alevanta-te, Imilha, dá a esmola ao pobrezinho;
dá-lhe pão e vinho mais aboltadinho
[. . . . . . . . . . . . . . . . . . .] para andar o caminho.
Não le quero o seu pão, não le quero o seu vinho,
sé quero que a menina me ensine o caminho.
Maria, pega na roca, carrega o teu linho,
vai-te com o pobre a ensinar o caminho.
Desfiou-se-me a roca, acabou-se o linho.
Adiante, cego, lá vai o caminho.
Valha-me Deus e Santa Maria!
Que gente é aquela de cavalaria?
Agache-se aqui, Emília, debaixo da minha capinha,
Intromentes passa a gente de cavalaria.
Nunca vi pobre nem cego com tal infantesia!
Espada de ouro, cinta de sorgia!
A cinta é minha, a espada é sua,
aceite, menina, a quem a procura.
Chega-te aqui, cavalo, a esta pedrinha;
a filha do nobre ela já é minha.
Chega-te aqui, cavalo, a esta pedra dourada;
a filha do nobre já cá vai roubada.
Adeus, minha terra, adeus, minha aldeia,
adeus, minha mãe, que tanto me falseia!