Ciego raptor v54

IGR: 0189. Versión: 54. Rima: 6+6 estróf.. Hemistiquios 64.

Póvoa da Atalaia (c. Fundão, dist. Castelo Branco, Beira Baixa, Portugal)

Era meia-noite    quando o ladrão veio,
deu três pancadinhas    à porta do meio.
Abram-me essas portas,    fechem-se os postigos,
dêem-me uns paninhos,    que eu venho ferido.
Se vem ferido,    venha muito imbora,
que as minhas portinhas    não se abrem agora.
Qual é o magano    que a esta hora anda?
Que eu estou im faixinha,    quero-me ir à cama.
Se está im faixinha,    mesmo assim a quero.
Venha daí, menina,    que eu por si espero.
Alevanta-te, Emília,    dá a esmola ao pobrezinho;
dá-lhe pão e vinho    para andar o caminho.
Não quero o seu pão,    nem quero o seu vinho,
só quero que Emília    me ensine o caminho.
Pega tu na roca,    vai fiando o linho,
ensina o caminho    ao pobre ceguinho.
Acabei a roca,    já fiei o linho.
Adiante, cego,    lá vai o caminho!
Sou curto da vista,    eu não vejo bem.
Venha comigo, menina,    só até mais além.
Valha-me Deus    e Santa Maria!
Que gente é aquela    de cavalaria?
Meta-se aqui, Emília,    debaixo da minha capinha.
Deixe passar a gente    que vem da romaria.
Nunca tal vi pobre    com tanta fantasia!
Espada de ouro,    cinta cingida!
Espada é minha,    a cinta é sua,
aceite, menina,    a quem a procura.
Adeus, minha terra,    adeus, minha aldeia,
adeus, minha mãe,    que tanto me falseia.
Adeus, minha aldeia,    adeus, minha terra,
adeus, minha mãe,    que tão falsa me era.

Bibliografía:
Recogido antes de 1954. Publicada en Dias Martins 1954, 233-235. Reeditada en Galhoz 1987-1988, I. 338-339 y RºPortTOM 2003, vol. 3, nº 1100, pp. 302-303. © Fundação Calouste Gulbenkian.