Ciego raptor v52

IGR: 0189. Versión: 52. Rima: 6+6 estróf.. Hemistiquios 68.

Covilhã (c. Covilhã, dist. Castelo Branco, Beira Baixa, Portugal)

Abre a porta, Ana,    abre o teu postigo;
dá-me um lenço, amor,    que venho ferido.
Se vindes ferido,    vinde muito embora;
porque a minha porta    não se abre agora.
Abri-me vós a porta,    ao menos o postigo;
venham dar esmola    ao pobre ceguinho.
Acorde, minha mãe,    acorde de dormir;
ande ouvir o cego    cantar e pedir.
Se ele canta e pede,    dá-lhe pão e vinho;
e o pobre do cego    que vá a seu caminho.
Não quero o seu pão,    não quero o seu vinho,
só quero que a menina    me ensine o caminho.
Pega, minha filha,    na tua roca e linho,
vai ao triste cego    ensinar o caminho.
Espiou-se a roca,    acabou-se o linho,
agora adiante, cego,    lá vai o caminho.
Ande a menina    mais até além,
que eu ainda sou cego    e não vejo bem.
Ande a menina    mais um bocadinho,
ande mais até àquele    verde espinho.
Ande a menina    por este carreiro,
ande até àquele    verde centeio.
Ai, arreda, arreda,    para este altinho;
que aí vem    por esse caminho.
Adeus, minhas casas,    adeus, minhas terras,
adeus, minha mãe,    que tão falsa me eras.
De condes e duques    me vi pretendida,
agora de um cego    me vejo vencida.
Que gente é aquela    de cavaleria?
Ai, arreda, arreda,    para este altinho;
se vem cavaleiros,    vem devagarinho,
que há muito me tardam    por este caminho.
É a minha mãe    mais sua madrinha,
que a vem buscar    para a terra minha.

Bibliografía:
Recogido antes de 1867. Publicada en Braga 1867a, 147-149. Reeditada en Hardung 1877, II 103-105; RGP II 1907, (reed. facs. 1985) 176-178 y RºPortTOM 2003, vol. 3, nº 1098, pp. 300-301. © Fundação Calouste Gulbenkian.