IGR: 0164. Versión: 11. Rima: í-a. Hemistiquios 390.
Funchal (c. Funchal, isla de Madeira, Madeira, Portugal)
Foi el-rei a montear, montear, como olia,
e, quanto mais monteava, menos la caça aparecia.
Los perros iam cansados, los falcões, ninguém los via.
Mas, na fim, vem uma corça, e `trás dele el-rei corria.
La corça saltou um cor`go e el-rei lá cairia,
se não é uma cidreira, que lo cor`go defendia.
Estava na terra das fadas, mas el-rei nã lo sabia,
por isso, sem mal cuidar, três cidras ali colhia,
com que ir matá` la sede, da calma, qu` ess` hora ardia
e tomando sua faca, la mais maneira partia.
Desta cidra quartejada, linda menina saía.
Quero água, se não morro. Ela, voz alta, pedia.
Mas naqueles arredores, d` água nem sinal havia;
e la menina, tão linda, logo à sede morria.
Com este caso tão triste, el-rei, mui` triste, fugia
e, da pressa que levava, mais forte sede sentia,
por isso, sem mal cuidar, segunda cidra partia;
desta cidra quartejada, outra menina saía.
Se la primeira foi linda, esta mais linda seria.
Quero água, se não morro. Ela, voz alta, pedia,
mas, naqueles arredores, d` água nem sinal havia
e la menina, tão linda, logo à sede morria.
Com mais este caso triste, el-rei mais triste fugia
e, da pressa que levava, mais forte sede sentia;
mas jurava de morrer, se l` outra cidra partia,
se não quando s` achegasse à beira de fonte fria.
Indo assim de caminho, pola sede acabaria,
se, na raia do seu reino, uma fonte nã nacia.
De `riba da mesma fonte, verde loireiro s` erguia;
dos ramos, com sua frança, fresca sombra la cobria.
La água caída d` alto, ja lá de longe se ouvia
e el-rei, que la ouviu, logo à fonte corria.
Chegado, tanto bebeu que sem sentidos caía.
Com el-rei caiu la cidra e quartejada partia;
desta derradeira cidra outra menina saía.
Se las outras eram lindas, esta mais linda seria.
Quero água, se não morro. Ela, voz alta, pedia;
e, tendo la fonte à mão, logo bebeu, e vivia,
mas, vendo-se toda nua, vergonhosa se escondia
naquele grande loireiro, onde, ligeira, subia.
Comenos, el-rei acorda, como quem sono dormia.
Ai, ó cidra de minha alma! Outro ai lhe respondia
e então logo s` ergueu, a ver quem assim gemia.
Era la menina linda, que no loiro s` encolhia.
Lo brilho dos olhos dela luz de estrelas resplendia,
mas la brasa dos de el-rei, não era brilhar, ardia,
porque, lá `riba olhando, toda nua bem la via;
mas, discreto namorado, la sua capa despia
e la deu, por esconder lo que ver desejaria,
que lo amor é menino, quer e nã quer, à porfia.
Que fazeis aqui senhora? (El-rei, pasmado, dizia)
Só de princesa de sangue tanta lindeza seria.
Lá derriba do loireiro la menina respondia:
Sete fadas m` encantaram, por set` anos e um dia;
ontem findaram los anos e hoje findou lo dia;
que meu encanto findado, quando menos cuidaria
de ser princesa de França, a rainha passaria.
Pois, senhora,– (disse el-rei) por mulher vos recebia.
Eu sou rei destes lugares, comigo vos levaria.
Bem quisera ir convosco, mas isso como seria,
se mal vestida me vejo, sem damas de companhia?
Eu, el-rei, vos vou trazer, antes que finde lo dia,
ricos vestidos de corte e damas à cortesia.
Esperai vós aí, senhora, só morto nã voltaria,
palavra de rei sagrada, a qu` eu nunca faltaria.
Palavras não eram ditas, el-rei à corte volvia
e, da pressa que levava, no andar desaparecia.
Da princesa, no loireiro, só la cabeça surgia,
deitando olhos à fonte, seu rosto nela revia.
Quando já sozinha estava, uns passos d` alguém sentia
e viu vir mulher malata, com seu pote à fonte fria;
malata d` olhar de fogo, que las neves derretia;
malata de dentes alvos, com que beijos desafia.
Peitos altos a tremer e cintura que pedia;
abraços a redobrar, com ser malata, valia.
Mas à vista da princesa, nem compará-las havia.
A demais, malata má, que de inveja se mordia,
indo a lavá` la cara, lindo rosto na água via,
lo da princesa, não dela, lindo que mais nã podia,
mas, cuidando sê` lo seu, la malata assim dizia:
Eu, que sou tão bonitinha, vir de pote à fonte fria?!
Quebra-te, pote, nas pedras! E logo lo pote partia.
Nisto, ouve uma risada, sem saber donde viria,
olhando despois arriba, la princesa descobria,
que do caso, la princesa, sem parar `inda se ria.
La malata lhe deitou olhos de malataria,
malas artes de malata, quem então las cuidaria.
Que fazeis aqui, senhora? (Ela pasmada, dizia)
Só de princesa de sangue tanta lindeza seria.
Lá derriba do loireiro, la princesa respondia:
Sete fadas m` encantaram, por set` anos e um dia.
Ontem findaram los anos e hoje findou lo dia,
que, meu encanto findado, quando menos cuidaria,
de ser princesa de França, a rainha passaria.
Destes lugares el-rei `inda agora daqui ia,
a trazer vestes de corte e damas à cortesia,
que por mulher me tomava, consigo me levaria;
que lo esperass` eu aqui, só morto nã voltaria.
Deu-me palavra de rei, que nunca me faltaria
e lo estou aqui esperando, antes que finde lo dia.
La malata, de invejosa, tredas palavras volvia:
Tamanha fortuna, senhora, nunca a mim me chegaria;
dela vos dou parabéns, veio a quem la merecia.
Mas el-rei, quando vier, decerto mui` gostaria
que já bem penteada achasse, quem por noiva escolhia.
Decei, pois, senhora, abaixo, eu aqui vos pentearia;
já que nã pode ser mais, de grado vos serviria.
E la princesa, contente de ter ali companhia
e considerando razão no que la mulher dizia,
deceu para se pentear, como la malata queria.
La malata s` assentou, nas pedras da fonte fria;
da princesa, recostada, las longas grenhas abria
e, despois que la princesa descuidada `dormecia
e, no colo da treidora, a sono solto dormia,
na cabeça lhe enterrou alfinete que escondia,
alfinete de malata, cheio de feiticeria,
que da princesa, tão linda, uma pombinha fazia.
La pombinha, dando um ai, da malata se fugia;
la malata, às risadas, no loireiro s` assubia.
`Inda sol não era posto, já el-rei bem perto ia,
ricos vestidos trazendo e damas e fidalguia.
Princesa, minha princesa! Mas ninguém lhe respondia,
a nã ser voz duma pomba, que por ali se gemia.
Chegava então el-rei à beira da fonte fria,
junto do loireiro verde, que de sombra la vestia
e, deitando olhos altos, la malata descobria.
Que estás tu aí, malata? (E sanhudo lhe investia)
Da princesa, qu` `i deixei, dela que feito seria?
Se dela me não dás conta, cabeça te cortaria.
La malata lhe retruca e nem la voz lhe tremia.
Antes fora eu malata, eu daqui me escaparia.
Sou la princesa de França, que vossa mulher seria.
Se me vedes demudada, praga foi que rogaria
feiticeira de má morte, que de inveja se mordia.
Culpado desta desgraça só é sua senhoria.
Mal hajam las feiticeiras! (De raiva el-rei bramia)
Se la feição vos demudam, nã vos mudam hierarquia,
nem la palavra de rei, nunca eu la negaria.
Descei-vos daí, senhora, vinde em minha companhia.
La malata se vestiu de sedas, com pedraria,
a seu lado vai el-rei, vão damas à cortesia;
segue também, mais atrás, lo melhor da fidalguia.
Ela tem olhar de fogo–, (El-rei consigo dizia)
ela tem los dentes alvos, com que beijos desafia,
peitos altos a tremer, cintura que já pedia.
Cada vez que la mirava, mais formosuras lhe via;
el-rei, se vai neste andar, estou em dizer, `doidecia
e, por isso, la malata, à sorrateira se ria.
De que vos rides, senhora? Sabê-lo desejaria.
Ri de mim, do que me fez la negra feitiçeria,
que me cuidastes malata da maior malataria.
E se eu fora malata? Malato me tornaria.
Ai, meu rei e senhor meu, eu tanto vos nã merecia.
Logo qu` entrados na corte, grandes festas d` alegria,
el-rei, no altar sagrado, por mulher la recebia.
E, amoroso com ela, muito cativo vivia
daquele olhar tão de fogo, que las neves derretia;
daqueles dentes tão alvos, com que beijos desafia;
dos peitos altos, que tremem, da cintura, que pedia
abraços a redobrar, com que lo endoidecia.
Se la princesa aparecesse, el-rei como s` haveria?
Toda` las tardes seguidas, sem passar uma, se via
nos loireiros de palácio, uma pomba que dizia:
Como está el-rei, senhor, nesta má malataria,
com sua mulher malata, má, que ser mais nã podia?
Enquanto el-rei nã farta la paixão que nele ardia,
da pombinha dos loireiros ninguém las vozes ouvia.
Mas, despois que da malata já el-rei s` aborrecia,
dão ouvidos à pombinha p`ra saber lo que diria.
Como está el-rei senhor, nesta má malataria,
com sua mulher malata, má, que ser mais nã podia?
E la pomba dos loireiros tanto isto repetia,
que lo rei uma vez disse: Quem viva la apanharia.
Então, lo coiteiro-mor, sem mais delonga saía
e, um` hora não passada, la mansa pomba colhia,
e viva, às mãos d` el-rei, logo, logo, la trazia.
El-rei, como gostou dela, mão por cima lhe corria
e, na cabeça cravado, um alfinete lhe via.
Coitada de ti, pombinha, quem tanto mal te faria?
E, tirando l` alfinete, la pobinha nem gemia;
que naquele instante mesmo a ser princesa volvia,
aquela mesma princesa do loiro da fonte fria.
Do brilho dos olhos dela, lo de estrelas resplendia,
mas la brasa dos d` el-rei, não era brilhar, ardia.
Como foi isto, senhora? Sanhudo, el-rei inqu`ria.
Ela, chorosa, contou, ele, raivoso, ouvia.
Justiça, rei meu senhor, dessa malata vadia.
La malata, logo presa, por ordem d` el-rei morria,
posta dentro duma pipa, crivada de pregaria;
dos tampos ambos tapada, la pipa rolando ia
polas ruas da cidade, onde lo sangue vertia;
tantas voltas, tantas mortes, la malata padecia.
La princesa, na mesma hora, com el-rei s` arrecebia
e el-rei arrematava, dizendo, à cortesia:
Dei-vos palavra de rei, a ela nã faltaria.