IGR: 0095. Versión: 5. Rima: estróf.. Hemistiquios 58.
N/A (facticia)* (Portugal)
Já lá vem o sol na serra, já lá vem o claro dia,
e `inda o conde d` Alemanha com a rainha dormia.
Não o sabe homem nascido de quantos na corte havia;
só o sabia a infanta, a infanta sua filha.
Não nas chegue eu a romper, mangas da minha camisa,
se em vindo meu pai da caça, eu logo lho não diria.
Cal`-te, cal`-te, la infanta, não digas tal, minha filha,
que o conde d` Alemanha de oiro te vestiria.
Não quero vestidos d` oiro; mau fogo em quem nos vestira!
Padrasto, com meu pai vivo, nunca o eu consentiria.
Palavras não eram ditas, el-rei que à porta batia.
Deus venha c` o senhor pai e o traga na sua guia!
Tenho para lhe contar um conto de maravilha.
Estando eu no meu tear, seda amarela tecia,
veio o conde d` Alemanha, três fios dela me tira.
Cal`-te, daí, minha filha, ninguém te oiça dizer tal,
que o conde d` Alemanha é menino, quer brincar.
Arrenego dos seus brincos, mais do seu negro folgar!
Que me tomou nos seus braços, à cama me quis levar.
Cala-te já, minha filha, ninguém te oiça mais falar,
que em antes que o sol se ponha vai o conde a degolar.
Veis lo conde d` Alemanha, veis-lo vai a degolar;
ao rabo do seu cavalo lá o levam a arrastar.
Venha cá, senhora mãe, venha ao mirante folgar,
veja um conde tão formoso que aí vai a degolar.
Mal haja, filha, o meu leite, mais quem to deu de mamar,
que a um conde tão bonito a morte foste causar.
Cale-se daí, minha mãe, ninguém lhe oiça dizer tal,
que a morte que o Conde leva não lha faça eu levar.
Nota del editor de RºPortTOM 2003: Editamos Garrett II (1851).
Notas y variantes de Almeida Garrett: -1a Já o sol dá na vidraça – Ribatejo. -4a Sabia-o dona Silvana – Minho. Sabia-o dona Bernarda – Beira Alta. -5a Mangas da minha camisa, / não nas chegue eu a romper, // se em vindo meu pai da missa / logo lho não for dizer. -Minho. -9a Não quero vestidos de oiro, / pois os tenho de damasco: // `inda tenho meu pai vivo, / já me querem dar padrasto. -Ribatejo, Trás-os-Montes e Beira Alta. -14a Estando eu no meu tear / tecendo seda amarela, // veio o conde d` Alemanha / três fios me tirou dela. – Porto e outras. -18a Arrenego de tal conde – Beira Baixa. -24a Aqui as variantes são infinitas: é a passagem que todos os engenhos de aldeia se comprazeram mais a parafrasear e a fazer tema de seus floreados e variações, modernizando-a sem obedecer à rima certa do romance e quando menos ao seu toante ou assoante obrigado, cujas severas leis não permitem que se mude senão em espaços regulares, e nunca mais de duas ou três vezes em todo o decurso do mais extenso deles. Ponho aqui uma amostra destas que não são variantes, mas variações modernas. Venha cá, senhora mãe, / para a janela do meio, // ver o conde d` Alemanha / enfeitado de vermelho. // Venha cá, senhora mãe, / à janela do quintal, // ver o conde d` Alemanha / como vai a degolar. // Venha cá, ó minha mãe, / venha à janela do canto, // venha ver o senhor conde / como lhe parece o branco. // Venha ver, ó minha mãe, / à janelinha do poço, // venha ver o senhor conde / com uma corda ao pescoço. -29b Algumas cópias, especialmente as da Beira Alta e Ribatejo, trazem no fim uma espécie de conclusão ou rabo-leva; o que G[arcia] de Resende chamaria cabo ou fim (vej. Canc[ioneiro] de Res[ende]): remate que todavia se encontra quasi pelas mesmas palavras em muitas outras xácaras e romances. Numa campa rasa e triste / já o deixam enterrado; // puseram-lhe à cabeceira / um letreiro bem lavrado, // para quem passar que diga: / aqui jaz o malfadado, // que morreu de mal de amores, / que é mal desesperado.