IGR: 0092. Versión: 1. Rima: á+polias.. Hemistiquios 84.
Fajã (isla de S. Jorge, Açores, Portugal)
O marquês tinha três filhos, três filhos tinha o marquês.
O rei os mandou chamar cada um por sua vez:
o mais velho p`r`ò lavar, o do meio p`r`ò calçar;
Dom Pedro, que era o mais moço, ficou para o barbear.
E a princesa, assim que o viu, dele se quis namorar.
E o rei, assim que o soube, logo o mandou desterrar,
onde nã visse sol nem lua, nem fala pudesse dar:
`tivesse naquela prisão para ò depois o matar.
Passou lá um cavaleiro qu` ia p`à caça real.
Que fazes aqui, Dom Pedro, neste escuro hospital?
Estou preso para a morte, preso para ir a matar,
só por u~a fala d` amor qu` eu à princesa fui dar.
O cavaleiro caminhou, notícias à mãe foi dar.
A mãe, assim que o soube, tratou logo de caminhar
com os seus vestidos nos braços, sem os poder enfiar,
e os criados e criadas não a podiam alcançar.
Que fazes aqui, meu filho, neste escuro hospital?
Estou preso para a morte, preso p`a ir a matare,
só por u~a fala d` amor qu` eu à princesa fui dar.
Pega lá nesta viola e canta-me u~a canção;
é como teu pai fazia nas noites de S. João.
Oh que mãe tão cruel, tão dura do coração;
vê um filho para a morte e o manda cantar canção.
Estão as uvas em felor e os trigos em pandão.
Todos os rapazes novos ver as suas damas vão.
Uns levam cravos e rosas, outros o verde limão;
os que não têm que le levar levam-le o seu coração.
E só eu, pelas minhas culpas, `tou aqui nesta prisão.
Não sei quando amanhece nem quando arraia o sol,
se não fosse um passarinho que canta o rexinole.
Rexinol que tão bem cantas, onde aprendeste a cantar?
No palácio da rainha, onde o rei vai passear.
Escuta, ó linda infante, olha um tão doce cantar:
ò são os anjos no céu ò as sereias no mar.
Não são os anjos no céu nem as sereias no mar;
é Dom Pedro Pequenino, que mê pai tem p`ra matar.
Se é Dom Pedro Pequenino, eu o mandarei chamar.
E os papéis para a igreja p`a se irem casar.
Isso é o melhor dote que meu pai me pode dar.
Para as torradas, manteiga, para o fastio, limão,
para os velhos, o cacete, e para os novos, o bordão.
E para ti, minha janota, o meu terno coração.
[Vv. 20-30: Cf. O Prisioneiro (H7).]