IGR: 0005+0075. Versión: 22. Rima: í-a+á-a. Hemistiquios 110.
Velas (c. Velas, isla de S. Jorge, Açores, Portugal)
Um rei tinha três filhas, alvas como prata fina,
namorou-se da mais moça, por lhe chamarem Aldina.
Bem podias tu, Aldina, fazer-me a cama um dia.
Padre Santo não confessa pecados de pai com filha.
Bem puderas vós, Aldina, ser a minha namorada,
eu te vestiria de ouro, de prata fina lavrada.
Não o permita Jesus, nem a hóstia consagrada,
que eu sendo vossa filha, fosse a vossa namorada.
Nem meu pai por amor disso, não condene a sua alma.
Pois as penas do Inferno, eu por ti as passaria.
Deixai-me ir à minha sala, vestir uma alva camisa,
que esta que eu tenho vestida, tal pecado não faria.
Indo para a sua sala, com sua mãe se encontrou.
Ó rica mãe da minha alma, casai-me hoje neste dia,
que um pai que Deus me deu de amores me cometia.
Dai-me cá os teus vestidos, de semana cada dia,
que eu por ti, dona Aldina, faço essa romaria.
Se eu soubera, dona Aldina, que estavas tão corrompida,
eu as penas do Inferno, por ti as não passaria.
Quando zombavas comigo, ó Dom Pedro de Castila,
eu era mulher honrada, não era mulher vadia.
Maldição cubra a Aldina, que a seu pai foi descobrir.
Maldição cubra seu pai, que de amores a cometia.
Mandou fazer altas torres, de prata fina lavrada,
para lá meter Aldina, sete anos degradada,
a comer a carne crua, a beber água salgada.
Ao cabo de sete anos, Aldina fora soltada,
fora ter a uma varanda, onde sua mana estava.
Rica mana da minha alma, dai-me uma gotinha d` água,
que eu tenho os meus bofes secos, a minha alma se me aparta,
de comer a carne crua, de beber água salgada.
Rica mana da minha alma, eu não te posso dar água,
que meu pai me tem jurado, pela ponta da sua espada,
quem a ti água desse que a vida lhe tirava.
Chegou a uma varanda, onde sua mãe estava.
Ó rica mãe da minha alma, dai-me uma gotinha d` água,
que eu tenho os meus bofes secos, a minha alma se me aparta,
de comer a carne crua, de beber água salgada.
Guar`-te tu daí, Aldina, triste filha mal fadada,
que há sete anos, vai em outo, que eu por ti sou mal casada.
Chegara a uma varanda, aonde seu pai estava.
Ó rico pai da minha alma, dai-me uma gotinha d` água,
hei-de ser a vossa filha, mais a vossa namorada.
Corre, corre, cavaleiro, à Aldina buscar água,
em garrafinhas de prata, em taça sobredourada.
O primeiro que chegar, será rei de Portugal.
O rei, como mais esperto, foi o primeiro a chegar.
Quando ele cá chegou, já Aldina era passada,
com sete tochas acesas, a cabeça arrodeada,
estava no céu a cantar, numa rosa encarnada.
O pai estava no Inferno, com sua alma condenada.
Mandara forrar as ruas, de preto e tafetá,
não quis a boa fortuna que as chegasse a lograr.
Ajuntaram-se os anjinhos, logo em Aldina pegaram,
ajuntaram-se os garrazes, logo em seu pai agarraram.
Variante: -49b rodeada (1906).