IGR: 0005+0075. Versión: 14. Rima: í-a+á-a. Hemistiquios 109.
Elvas (c. Elvas, dist. Portalegre, Alto Alentejo, Portugal)
Estando dona Silvana no seu jardim assentada,
em manguinhas de camisa, seu pai que bem a mirava.
Vá-se daqui, ó meu pai, ouvir a missa do dia,
que eu vou para o meu quarto vestir outra fatania.
Ao subir da negra escada, madre velha que encontrava.
O que tendes vós, Silvana, que assim vens agoniada?
O que hei-de ter, madre velha, acuda-me com o seu poder,
que meu pai é um traidor, sua filha quis acometer.
Cala-te aí, ó Silvana, que isso remédio havia,
deita-te na minha cama, que na tua me deitaria.
Lá pela noite adiante a traição a acometia.
Vai-te daí, ó Silvana, vai-te daí, ó malvada,
que `ó fim de sete anos e um dia me fizeste mal casada.
Cala-te aí, mulher minha, que isso remédio havia.
Mando-a meter numa torre, onde não veja sol nem dia;
nem as ávens do céu notícias dela daria;
comerá peixe salgado, água não na beberia.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . `Ó fim de dezanove anos e um dia
abriu-se-lhe uma ventana, das mais altas que tenia.
Viu estar seus irmanitos jogando a espada preta.
[. . . . . . . . . . . . . . . . . . .] Irmanitos da minh` alma,
por Deus e Santa Maria, dai-me um jarrinho d` água!
Irmanita da minh` alma, quem te pudera dar água!
Nosso pai é um traidor, `té a água tem fechada!
Tem-nos prometido a todos, p`las cruzes da sua espada,
que aquele que te der água terá a cabeça cortada!
Foi-se dali Silvana, muito triste, agoniada;
abriu-se-lhe outra ventana, das mais altas que tenia,
viu estar suas irmanitas fiando ouro e prata.
[. . . . . . . . . . . . . . . . . . .] Irmanitas da minh` alma,
por Deus e Santa Maria, dai-me um jarrinho d` água.
Irmanita da minh` alma, quem te pudera dar água!
Nosso pai é um traidor, `té a água tem fechada!
Tem-nos prometido a todas, p`las cruzes da sua espada,
que aquela que te der água terá a cabeça cortada!
Foi-se dali Silvana, muito triste, agoniada;
abriu-se-lhe outra ventana, das mais altas que tenia,
viu estar su madre velha lendo num livro de prata.
Madre velha, madre velha, madre velha da minh` alma,
por Deus e Santa Maria, dai-me um jarrinho d` água.
Vai-te daí, ó Silvana, vai-te daí, ó malvada!
Que `ó fim de dezanove anos e um dia me fizeste mal casada!
Foi-se dali Silvana, muito triste, agoniada,
abriu-se-lhe outra ventana, das mais altas que tenia,
viu estar su padre velho lendo num livro d` ouro.
Padre velho, padre velho, padre velho da minh` alma,
por Deus e Santa Maria, dai-me um jarrinho d` água,
que eu prometo, ó meu pai, de ser vossa namorada.
Altos criados, criados! A Silvana vão dar água!
Aquele que chegar primeiro tem uma prenda ganhada
e aquele que chegar último tem a cabeça cortada.
Já Silvana está morta, de anjinhos está cercada,
S. João fazia a cova, Nossa Senhora a amortalhava;
à cabeceira da cama tinha uma fonte d` água.
Ó Silvana, minha filha, oh, quem não te fora nada!
A tu` alma está no céu, a minha está condenada!
Nota del editor de RºPortTOM 2003: Editamos Soromenho 1963 por ter consultado o manuscrito autógrafo.