IGR: 2957. Versión: 1. Rima: estróf.. Hemistiquios 80.
Brasil s. l. (Brasil)
Triste vida é a do frade,
`inda peior que a da freira;
andar de noite às escuras
em penitência.
Precisa ter paciência
no longo noviciado;
estar um ano encerrado,
eu não pensava.
Logo disse: –Não queria
ser frade neste convento,
porque mui grande tormento
experimentava.
Só à força eu professei
por meu pai assim querer;
sou defunto sem morrer,
amortalhado.
.
Vivo em fogo abrasador
com este hábito vestido,
e quando me vejo despido
estou contente.
.
Quando me vejo doente,
metido na enfermaria,
é quando tenho alegria
nesta desdita.
.
Si alguma licença alcanço,
a meus pais vou visitar,
e si os outros vão passear,
eu também vou.
.
Logo que o canto volta,
o meu belo companheiro
procura a rua primeiro
dos seus amores.
.
Si está doente não tem dores
logo que solto se vê;
`inda que a gota lhe dê,
não é tão forte.
.
Cuido estar para morrer
quando subo esta ladeira;
quando desço é de carreira,
a toda a pressa.
.
De missas uma remessa
o guardião sempre tem;
ganhar o frade um vintém?
Ora essa é boa!
Si morre alguma pessoa,
que ofício vamos rezar?
Todos juntos a cantar
no coro estão.
De noite, à porta da cela,
certas matracas tocando,
vão-nos levantando,
a rezar no coro.
Com isso quasi que morro,
às vezes sonambulando;
si estou rezando ou miando
também não sei.
Quando cuido de dormir
toca ofício de agonia;
vamos para a enfermaria
rezar, cantar.
O frade, perto a expirar,
sem acabar de morrer,
quando o dia amanheceu
`stá entendido.
Já morreu arrependido
o nosso frade doente;
ponha-se isso patente,
que ofício temos.
Graças a Deus já rezamos;
toca o sino a refeitório
p`ra tomar um vomitório
de arroz cozido.
Si algum meu conhecido
frade quiser-se meter,
antes se exponha a morrer
do que ser frade.
Do mesmo se queixa a madre
por não acompanhar o frade,
por não ter mais liberdade,
e nada mais.