Silvana+Delgadina v8

IGR: 0005+0075. Versión: 8. Rima: í-a+á-a. Hemistiquios 102.

S. Jorge s. l. (isla de S. Jorge, Açores, Portugal)

Passeava dona Silvana    por o corredor acima,
viola de ouro ao peito,    pois ela bem retinia.
Pois se ela bem retinia,    melhor romance fazia,
com sua viola à cinta,    melhor balanço trazia.
Seu pai a estava mirando,    da sala aonde assistia.
Bem me pareces, Silvana,    em véstias de cada dia,
do que tua mãe, rainha,    com quanto ouro havia.
Bem puderas tu, Silvana,    ser o meu amor um dia.
Pois as penas do Inferno,    meu pai, quem as passaria?
Passaria-as eu Silvana,    por ter um gosto na vida.
Deixai-me, senhor, deixai-me,    com honra e cortesia,
quero ir à minha sala,    vestir uma alva camisa,
pois esta que tenho no corpo,    com ela não pecaria.
Que tendes, bela Silvana,    que vindes tão assustada?
Um pai, que Deus me deu,    quer que eu seja sua amada.
Dai-me cá os teus vestidos,    vestidos de cada dia,
quero ir a esse lugar,    cumprir essa romaria.
Se eu soubera, ó Silvana,    que estavas tão corrompida,
as penas lá do Inferno,    por ti não as passaria.
Eu não sou dona Silvana,    sou a mãe que a paria,
enquanto falei contigo,    ó Dom Pedro de Castila,
eu era mulher honrada,    não era mulher vadia.
Maldição cubra a filha    que o seu pai descobria.
Maldição cubra o pai    que tal filha cometia.
Mandara-a meter num carcer    donde sol nem lua havia,
dava-lhe o pão por onça,    água por uma medida.
Ao cabo de nove meses,    corredores ela corria,
encontrara sua mãe, pediu-lhe    um pinguinho d` água.
Ó rica mãe da minha alma,    dai-me um pinguinho d` água,
que eu trago os meus bofes secos,    minha alma se desaparta,
de comer a carne crua,    de beber água salgada,
de comer pão bolorento    que o senhor pai me mandava.
Rica filha da minha alma,    eu não te posso dar água,
pois teu pai me tem jurado,    pelo fio da sua espada,
que a quem te desse água    sete vidas lhe tirara.
Vai ter com o teu irmão    que te dê uma pinga d` água.
Ó rico irmão da minha alma,    dai-me uma gotinha d` água.
Rica irmã da minha alma,    quem vo-la pudesse dar,
o rei meu pai, se o sabe,    logo me manda matar,
mas vai ter ao senhor pai    que te dê uma gotinha d` água.
Ó rico pai da minha alma,    dai-me uma gotinha d` água,
que eu d` hoje por diante    serei sempre a tua amada.
`Inda me apareces diante,    Silvana desamparada?
Deus se lembre da minha alma,    se tu, filha, me lembravas.
Andem moços, corram moços,    depressa a buscar água,
o que mais depressa for,    será rei de Portugal.
Ó rico pai da minha alma,    já não quero a vossa água,
que a minha alma está no céu,    está numa rosa pintada,
a vossa está no Inferno,    pois bem o tendes ganhado.
Andem moços, corram moços,    depressa a forrar palácio,
a minha alma está no Inferno,    pois ela o tinha jurado.
Variantes: -2a no (1906); -42b sua (1906).    
Nota del editor de RºPortTOM 2003: Redol 1964 com harmonização de Lopes Graça edita oito hemistíquios.    

Otros datos:
Título original: Silvana.

Bibliografía:
Recogido antes de 1869. Publicada en Braga 1869, (y Braga 1982), 197200. Reeditada en Hardung 1887, I. 138141; Soares de Sousa 1902, 242245; RGP I 1906, (reed. facs. 1982) 480-483; Redol 1964, 499501 e sp; Cortes-Rodrigues 1987, 343345; Carinhas 1995, II. 54-55 y RºPortTOM 2003, vol. 3, nº 1133, pp. 337-338. © Fundação Calouste Gulbenkian.