IGR: 0005+0075. Versión: 11. Rima: í-a+á-a. Hemistiquios 100.
Rosmaninhal (c. Idanha-a-Nova, dist. Castelo Branco, Beira Baixa, Portugal)
Passeava a Galdoninha pelo corredor acima;
viola de oiro levava, oh, que tão bem a tangia!
E se ela bem a tangia melhor romance fazia.
A cada passo que dava seu pai a acometia.
Atreves-te tu, Galdoninha, uma noite a seres minha?
Fora uma, fora duas, meu pai, em cada dia,
mas as penas do Inferno, quem por mim as penaria?
Peno-as eu, Galdoninha, que as peno cada dia.
Galdoninha, Galdoninha, hás-de ser minha namorada,
que te hei-de vestir de oiro, que te hei-de calçar de prata.
Foi-se daí a Galdoninha, muito agastada que ia,
foi-se encontrar com sua mãe lá no adro da ermida.
Que tens tu, ó Galdoninha, que tens tu, ó filha minha?
Oh, quem tal pai não tivera, quem não fora sua filha,
que me acomete de amores, ó minha mãe, cada dia!
Lá pela meia-noite seu pai a acometia.
Oh mal haja a filha que seu pai descobria!
Oh mal haja que haja o pai que sua filha acometia!
Mandou-lhe fazer uma torre onde nem sol nem lua via.
Dão-lhe a comida por onça e a água por medida.
Ao cabo de sete anos, vê-se a torre que se abria.
Galdoninha numa janela das mais altas que a torre tinha
viu estar sua mãe muito bem assentadinha.
Por uma mãe que Deus me deu, dai-me uma pinguinha d` água,
que se me parte a vida, que se me arranca a alma.
Dera-te eu, filha minha, se a tivera salgada,
que há sete para oito anos que por ti sou mal casada.
Se teu pai tem jurado, pela cruz da sua espada,
quem primeiro te desse água tinha a cabeça cortada.
Assomou-se a outra janela das mais altas que a torre tinha,
viu estar suas irmãs muito contentes, sozinhas.
Ó irmãs da minha alma, dai-me um jarro de água,
que se me aparta a vida, que se me arranca a alma!
Dera-ta eu, irmã minha, s e a tivesse empeçonhada,
que o nosso pai tem jurado, pela cruz da sua espada,
quem primeiro te desse a água o pescoço lhe cortava.
Assomou-se a Galdoninha a outra janela mais alta;
foi-se encontrar com seu pai a jogar a imbocada.
Estejais com Deus, meu pai, pai meu da minha alma,
peço-vos por Deus do Céu que me deis um jarro d` água,
que se me arranca a vida, que se me aparta a alma,
e de hoje por diante serei vossa namorada.
Levantem-se, meus pajens, criados da minha casa,
uns venham com jarros d` oiro, outros com jarros de prata,
o primeiro que chegar tem a comenda ganhada,
o segundo que chegar tem a cabeça cortada.
Os criados que chegavam, Galdoninha que finava
nos braços da Virgem Santa, dos anjos alumiada.
Vai-te embora, Galdoninha, Galdoninha da minha alma,
tua alma vai para o Céu, a minha fica culpada.