Silvana+Delgadina v10

IGR: 0005+0075. Versión: 10. Rima: í-a+á-a. Hemistiquios 124.

Rosmaninhal (c. Idanha-a-Nova, dist. Castelo Branco, Beira Baixa, Portugal)

Silvana de olhos azuis    a toda a oente encantava,
num passeador que tinha    todos os dias passeava,
sendo por seu pai seguida,    sendo por seu pai mirada.
Bem puderas tu, Silvana,    seres minha namorada.
Eu de oiro te vestia,    eu de prata te calçava.
Bem podias tu, Silvana,    bem podias, filha minha,
dormires comigo uma noite,    brincares comigo um dia.
Brincava, meu pai, brincava,    dormia, meu pai, dormia,
mas as penas do Inferno,    oh! quem as padecia?
Dali se foi a Silvana,    muito triste que ela ia.
Sua mãe lhe procurou:    Que tens tu, ó minha filha?
É o ladrão do meu pai    que de amores me perseguia.
Vai tu para a minha cama,    que eu para a tua iria.-
Lá pela noite adiante    Silvana desconhecia.
Nunca pensei, ó Silvana,    que tão falsa me serias,
que às ordens de teu pai    assim desobedecerias.
Hei-de mandar-te meter numa torre    das mais altas que haveria,
com as janelas fechadas,    para não veres a luz do dia.
Hei-de dar-te o pão por onça    e a água por medida.
Dar-te-ei sardinhas salgadas    para que se te seque a vida.
Passados foram sete anos,    na torre um postigo se abria,
nele apareceu a Silvana,    seu rosto resplandecia.
No jardim viu sua mãe    que numa almofada cosia.
Deus a guarde, ó minha mãe,    também à Virgem Sagrada,
desse jarro que aí tem    dê-me uma pinguinha d` água.
Vai-te daí, pega negra,    pega negra encantada,
por tua causa há sete anos    que eu vivo mal casada.
Subiu mais a Silvaninha    e outra janela abriu,
assentadas suas manas    foi o que daquela viu.
Deus vos guarde, ó manas minhas,    e mais à Virgem Sagrada,
desse jarro que aí tendes    dai-me uma pinguinha d` água,
que se me apaga a vida    e se me abrasa a alma.
Dera, dera, mana minha,    dera-te uma pinguinha d` água,
mas, se o pai o soubera,    a cabeça nos cortava,
porque ele fez uma jura    à ponta da sua espada.
Dali se foi a Silvana,    muito chorosa ela ia.
Subiu a outra janela,    a última que ali havia.
Dali avistou seu pai    jogando o jogo das cartas.
Deus o guarde, ó meu pai,    tambem à Virgem Sagrada,
desse jarro que aí tem    dê-me uma pinga d` água,
que se me apaga a vida    e se me abrasa a alma.
Eu prometo de hoje em diante    de ser sua namorada.
Corram, corram, meus criados,    vão dar água à Silvana,
o primeiro que lá chegar    grande prémio ganhará,
o último que lá chegar    a cabeça se lhe cortará.
Silvana já estava morta,    dos anjos alumiada,
debaixo dela corria    um ribeiro d` água clara.
A alma de seu pai    já pelos outeiros berrava;
e a alma de sua mãe    nos Infernos condenava.
Cesse, cesse a justiça,    eu a faço já cessar,
essa menina que aí vai    `inda vai por confessar.
Confessa-a lá, ó frei,    enquanto vamos jantar.
Confesse-se lá, menina,    comece-se a persinar,
no meio da confissão    um beijinho m` há-de dar.
Não permita a Deus do Céu    nem aos santos do altar,
boca que o conde beijou    não é p`ra frade beijar.
Confesse-se lá, menina,    comece-se a persinar,
no meio da confissão    um abraço m` há-de dar.
Não permita a Deus do Céu    nem aos santos do altar,
braços que o conde abraçou    não são p`r`ò frade abraçar.
Vai dizer já a teus manos    que te venham a buscar,

Otros datos:
62 ou então a teu pai que te venha a matar.--

Título original: Delgadina.

Bibliografía:
Recogido antes de 1960. Publicada en Leite de Vasconcellos 1958-1960, II. 64-66. Reeditada en RºPortTOM 2003, vol. 3, nº 1172, pp. 376-378. © Fundação Calouste Gulbenkian.
[0159 Conde Claros en hábito de fraile contam.]