Señas del esposo v284

IGR: 0113. Versión: 284. Rima: í+estróf.. Hemistiquios 92.

Amieira (c. Crato, dist. Portalegre, Alto Alentejo, Portugal)

Estava dona Mariana    no seu jardim assentada,
com pente de ouro na mão    seu cabelo penteava.
Deitou os olhos ao largo    viu vir uma grande armada,
cavaleiro que nela vinha    trazia-a bem guiada.
Entra as portas do jardim,    pediu um jarro com água.
Diga-me, senhor cavaleiro,    diga-me, por sua alma,
o lindo amor que eu tinha    viu-o na sua armada?
Diga, minha senhora,    que sinais ele levava.
Levava cavalo branco    com sua cilha dourada,
na ponta da sua lança    a Cruz de Cristo gravada.
Pelos sinais que me dá,    eu o vi andar na guerra,
à sombra do lírio roxo    vinte estocadas lhe deram.
Ai triste de mim, viúva!    Ai triste de mim, donzela!
Tão lindo amor eu tinha    e foi morrer à guerra,
Que daríeis vós, senhora,    a quem o trouxera aqui?
Dava-lhe armas e cavalos    que eram de meu marido.
Deixe estar as suas armas,    que não armam para mim,
eu sou soldado na guerra,    não existo por aqui.
Que dáveis mais, senhora,    a quem o trouxera aqui?
De três moinhos que tenho    dava-lhe o mais entil,
um que mói a canela,    outro o trigo anafil,
o outro, o que mói o pão,    esse quero eu para mim.
-Que dáveis mais, senhora,    a quem o trouxera aqui?
De três limoais que tenho    dava-lhe o mais entil,
que dão tão bons limões    que o rei mos manda pedir.
Que dera mais, senhora,    a quem o trouxera aqui?
De três meninas que tenho    dava-lhe a mais gentil:
uma, dona Mariana,    outra, dona Beatriz,
outra, dona Violante,    de todas a mais galante.
Deixe estar as suas filhas    que elas filhas são de mim,
sou soldado na guerra,    não existo por aqui.
Cavaleiro que tal disse    merecia já assim:
preso ao rabo do meu cavalo,    ao longo do meu jardim.
Ala! Ala! meus criados,    vão fazer já assim:
preso ao rabo do meu cavalo,    ao longo do meu jardim.
Deixe estar os seus criados,    que criados são de mim,
eu sou soldado na guerra,    não existo por aqui.
E que dera mais, senhora,    a quem lho trouxera aqui?
Não tenho mais que lhe dar,    nem vós mais que pedir.
Quero esse corpinho bem feito,    que foi feito só para mim.
Se tu és o meu marido,    quero-te mais que a mim.
Lembra-se, minha senhora,    numa noite do Natal,
do anel que nós partimos e    ntre as portas do quintal?
Apresente a sua metade,    que a minha está aqui.
Fechemos portas e janelas,    vamos deitar a dormir,
lavemos os pés com rosas,    em água do alecrim.

Otros datos:
Título original Bela Infanta.

Bibliografía:
Recogido antes de 1936. Publicada en Sousa - Rasquilho 1936/1982, (reed. facs. 1982) 303-307. Reeditada en RºPortTOM 2001, vol. 2, nº 411, pp. 97-98. © Fundação Calouste Gulbenkian.