Marinero al agua v65

IGR: 0180. Versión: 65. Rima: á-a. Hemistiquios 28.

Valpaços (c. Valpaços, dist. Vila Real, Trás-os-Montes, Portugal)

Gritos dava o marinheiro,    gritos dava, que se afogava.
Respondeu-lhe o mau demónio    d` altas torres donde estava:
Quanto dás, ó marinheiro,    a quem da água te tirava?
Eu dava-te um navio d` oiro    e outro de prata lavrada.
Eu não te quero o teu oiro,    nem a tua prata lavrada,
só quero que, em tu morrendo,    me deixes a tua alma.
Eu te arrenego, mau demónio,    e à tua má palavra.
Minha alma não ta deixo,    que é para Deus, Virgem Sagrada;
meu corpo é para os peixes    que andam na água salgada;
as pernas são para os mancos,    que nelas façam jornada;
os meus braços são para os almocreves,    p`ra arrochos e sob`cargas;
minhas tripas são para os cegos,    para cordas de guitarras;
minha cabeça é p`ra formigas,    que nela façam morada.
Gritos dava o marinheiro,    gritos dava, que s` afogava.

Bibliografía:
Recogido antes de 1960. Publicada en Leite de Vasconcellos 1958-1960, II. 174-175. Reeditada en RºPortTOM2000, vol. 4, nº 1598, pp. 335-336. © Fundação Calouste Gulbenkian.