Marinero al agua v60

IGR: 0180. Versión: 60. Rima: á-a. Hemistiquios 28.

Matela (c. Vimioso, dist. Bragança, Trás-os-Montes, Portugal)

Vozes dava o marinheiro,    vozes dava, que se afogava.
Arrespondeu-le o mau demónio    das outras bandas da água:
Quanto deras, marinheiro,    a quem da água te tirara?
Dava o meu navio,    carregado de prata lavrada.
Eu não quero o teu navio,    nem tão-pouco a tua prata,
só quero que, em morrendo,    me deixes a tua alma.
A minha alma não ta deixo,    que é para a Virgem Sagrada;
meu corpo é para os peixes    que andam na água salgada;
as tripas são para os cegos,    para cordas de guitarra;
as pernas para os aleijados,    para que sigam na jornada;
os braços aos soldados,    para que joguem a espada;
a cabeça para as formigas,    para que nela façam morada;
as calças deixo-as ao cura    e o casaco à criada,
quando eis estiverem a rezar,    que me peçam pela alma.

Bibliografía:
Recogido antes de 1960. Publicada en Leite de Vasconcellos 1958-1960, II. 178. Reeditada en RºPortTOM2000, vol. 4, nº 1593, p. 333. © Fundação Calouste Gulbenkian.