Mala suegra v104

IGR: 0153. Versión: 104. Rima: á. Hemistiquios 88.

Salselas (c. Macedo de Cavaleiros, dist. Bragança, Trás-os-Montes, Portugal)

Quem me dera ali, além,    naquele monte, naquele vale!
Quem me dera mais adiante,    lá em casa de meu pai!
Se a pressa é muito grande,    deitai-vos a caminhar.
Meu marido foi à caça,    quem lhe há-de pôr de jantar?
De jantar ponho-lhe eu,    depressa, não devagar,
da caça que ele trouxer,    dela te hei-de guardar.
Da perdiz um bocadinho,    do coelho a metade.
Sua esposa a sair de casa,    seu marido a chegar.
Donde está minha esposa    que me não põe de jantar?
Tua esposa, filho meu,    foi p`ra casa de seu pai,
a mim me chamou perra,    e a ti filho de mau pai.
Donde está o meu cavalo    que o quero emparelhar?
Donde está meu fato novo    que me quero preparar?
Donde está a minha espada d` ouro    p`ra minha esposa matar?
Avança, avança, cavalo,    quanto puderes avançar,
jornada de três dias    em três horas hás-de andar.
Em meio do caminho    seu cunhado foi encontrar.
Novas te dou, meu cunhado,    novas de grande alegrão,
entre colchas e colchões    nasceu-te um filho varão.
Para a alegria que eu tenho,    quer me nascesse, quer não.
Sete voltas deu ao palácio,    sem achar por onde entrar,
ao cabo das sete voltas    Mariquinhas deu um ai.
Já lá vem o meu marido,    já me vem a buscar.
Paridinha de três horas,    tu aonde a queres levar?
Paridinha que valeira    no cavalo vai montar.
Se aqui estivesse meu esposo,    não na havias de levar.
Se aqui estivesse teu marido,    havia de to aqui matar.
Abonda-me daí essas ligas    que me quero bem ligar.
La no meio do caminho    e em campos de Aragão.
Olha a sela do teu cavalo    que cheias do meu parto vão.
À entrada daquela terra,    à saída daquele lugar.
Não haverá algum clérigo    para eu me confessar?
À entrada daquele povo,    à saída daquele lugar.
Não haverá um tabelião    para eu poder testar?
Faz-m` o testamento de boca    que te quero escutar.
A quem deixas os teus livros,    a quem nos queres deixar?
A quem deixas os teus vestidos,    a quem nos queres deixar?
Deixo-os à minha irmã mais velha    para com eles ir gozar.
A quem deixas o teu ouro,    a quem no queres deixar?
Deixo-o à minha irmã mais nova    p`ra com ele poder brilhar.
A quem deixas o teu filho,    tu a quem no queres deixar?
Deixo-o à minha santa mãe    que bem mo há-de guardar.
Avança, avança, cavalo,    quanto puderes avançar,
para procurar um remédio    para minha esposa curar.

Bibliografía:
Recogido antes de 1960. Publicada en Leite de Vasconcellos 1958-1960, II, 128-129. Reeditada en RºPortTOM 2001, vol. 2, nº 601, pp.271-272. © Fundação Calouste Gulbenkian.