IGR: 0164+0100. Versión: 33. Rima: í-a. Hemistiquios 66.
Vinhais s. l. (dist. Bragança, Trás-os-Montes, Portugal)
A caçar vai cavaleiro, à caça como solia,
seus perros leva cansados, seu balcão perdido ia.
Anoiteceu-lhe num ermo, lá numa espessa montina,
arrumara-se a um robe formoso na maravilha.
Lá por essa meia-noite deitara olhos acima,
vira estar uma donzela, vira estar uma menina,
com pente d` ouro na mão, ela pentear-se queria;
seu cabelo era tanto, todo o robe lhe cobria,
os olhos da sua cara a todo o mundo luziam;
os dentes da sua boca parecem neve caída;
os dedos das suas mãos parecem de cristal fino.
Que fazes aí, donzela, que fazes aí, menina?
Estou a cumprir uma fada que me botou minha madrinha;
que hei-de estar aqui sete anos, sete anos e mais um dia;
hoje se acabam os sete e amanhã se encerra o dia.
Queres tu, ó donzelinha, vires na minha companhia?
Levarei-te em meu cavalo, ou nas ancas ou na silha.
Nas ancas, não, cavaleiro, que isso é descortesia;
na silha, sim, cavaleiro, que é honra tua e minha.
Lá no meio do caminho a donzela se sorria.
De que te ris, ó donzela, de que te ris, ó menina?
Rio-me do cavaleiro e da sua covardia,
que achou uma niña no monte e guardou-lhe cortesia.
Volta p`ra trás, meu cavalo, que minhas esporas hei perdido.
Anda, anda, cavaleiro, não uses de vilania;
tuas esporas são de prata, meu pai d` ouro tas daria.
Donde era esse teu pai que tanto ouro teria?
Meu pai é o rei de França, minha mãe é Constantina.
Pelas novas que me dás, tu és hermana minha.
Abre-m` as portas, meu pai, abre-mas com alegria,
cuidei que trazia esposa e trago hermana minha.
Se tu trouxesses esposa, entravas por esse palácio,
se trazes hermana tua deita-ma aqui nos meus braços.