Hortelão das Flores v2

IGR: 0714. Versión: 2. Rima: estróf.. Hemistiquios 63.

Mangualde s. l. (dist. Viseu, Beira Alta, Portugal)

Venho pedir-te conselho,    velha dos tempos antigos.
Quero falar à princesa,    quero que case comigo.
Conselho, conselho,    que conselho lhe hei-de dar?
Vista-se em trajo de pastor,    vá à porta do pomar.
Se nesse trajo me virem,    não farão caso de mim.
[. . . . . . . . . . . . . . . . . . .]    
Farão, senhor, farão,    tem cara de graça real,
olhinhos de marfim    e a boquinha dum rubim
Abre-me a porta, jardim,    hortelão das belas flores,
que eu venho em trajo mudado    p`ra falar aos meus amores
Venha ver, ó minha mãe,    este nosso hortelão,
que ele tem olhos de marfim,    mas ele prega-os no chão
Chama-mo cá, minha filha,    chama-mo cá p`ra mais perto,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . .    que ele me parece ser discreto
Dai-me uma pinguinha d` água,    que estou morrendo à sede.
Aí te apago a sede,    açucena e bela clara.
Minha sede não se apaga,    pois ela é tão continuada.
[. . . . . . . . . . . . . . . . . . .]    
Amanhã de manhã cedo,    amanhã de madrugada,
traga-me uma burrinha    muito bem aparelhada
. . . . . . . . . . . . . . . . . . .    que o não saiba ninguém,
que eu quero ir consigo,    estrangeirinha p`r `i além.
Sendo vós filha d` el rei,    que nunca pagou à justiça,
eu filho do corta-carnes,    como pode ser assim?
Amanhã de manhã cedo,    amanhã de madrugada,
traga-me uma burrinha    muito bem aparelhada,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . .    que o não saiba ninguém,
que eu quero ir consigo,    estrangeirinha p`r `i além.
Se meu pai perguntar    pela dona Aboladoura,
dizei-lhe que amores me levam,    a culpa não é só minha,
que irei com um um pastor de gado    para maior perdição minha!
Abala, abala, Aboladoura,    deixa teus bens à profia,
que entre Inglaterra    águas claras havia;
também há salas douradas    d` ouro fino ou cutia;
também há belas senhoras    para a vossa companhia.
Notas de J. L. de Vasconcellos: -6b graça por garça (?); -21b justiça O texto: portiça; -30b deixa ou deita (?)    
Notas del editor de RºPortTOM 2004: -9b Leite (L. deVasconcellos 1958) emplea colchetes: ao[s] meu[s] amore[s]; y al final de -32b inserta entre parêntesis uma interrogação.    

Otros datos:
Nota: empalma el segundo romance en el verso -29.

Título original: Flérida.

Bibliografía:
Recogido antes de 1958. Publicada en Leite de Vasconcellos 1958-1960, I, 318-319. Reeditada en Pinto-Correia 1984, 343-344 y RºPortTOM 2004, vol. 4, nº 1282, pp. 25-27. © Fundação Calouste Gulbenkian.
[0431 Flérida y don Duardos contam.]