Hortelão das Flores v1

IGR: 0714. Versión: 1. Rima: estróf.. Hemistiquios 116.

Covilhã s. l. (dist. Castelo Branco, Portugal)

Não venho por ter ver,    nem por te dar valor,
venho por erguer olhos    e a vista no sol pôr.
Falar quero à princesa,    o amor me traz rendido;
a ti peço conselho,    velha do tempo antigo.
Vista traje mudado,    cante em seu bandolim,
boquinha de cristal,    faces de serafim.
Um bom conselho, velha,    me deste para mim!
Não farão de mim caso    se me virem assim.
Com Deus te fica, velha,    mais a tua porfia;
mas se eu a render, velha,    tens tença cada dia.
Eu vou bater o mato,    caçar altenaria,
mas, se ela me escapar,    em ti me vingaria.
Abri lá essas portas,    ó hortelão das flores!
Venha em traje mudado    falar aos meus amores.
Senhor, podeis entrar,    que tendes sempre acerto;
senhor, sois Dom Duarte,    que bem vos reconheço.
Oh que varandas altas    com cem palmos de alteza!
Diz, velho de bom tempo,    se ali vem a princesa.
Para as varandas altas,    para tomar a fresca,
costuma vir sozinha    quasi sempre a princesa.
Se ela te perguntar    quem é o estrangeiro,
dize que é um teu filho    vindo lá doutro reino.
Que varandas tão altas,    que jardim tão bem plantado!
Soubera o que hoje sei,    que o tinha passeado.
Ó regador dos cravos,    venha para mais perto,
conversar a princesa    com prazer discreto.
Ó regador dos cravos,    venha para o mirante,
olhar para a princesa    com olhos de diamante.
Mandaram-me cá vir?    Não sei se é verdade.
Tão verdade não fora,    espelho belo e claro.
Tendes-me aqui, senhora,    mandai como a vassalo.
Já estive em noite escura,    agora é dia claro.
Dai-me, que tenho sede,    um pucarinho de água.
Aqui vos mato a sede,    espelho belo e claro.
A mim não há quem mate    a sede continuada.
Vem cá falar comigo    amanhã de madrugada.
Aluga uma burrinha,    que o não saiba ninguém,
que eu quero para sempre    ir daqui para além.
Como a levarei, senhora,    com quem ireis daqui?
Filho de um corta-carne,    que apregoa aqui!
Não se me dá que o sejas    ou que apregoe aqui.
Aluguei a burrinha,    vá-se despedir.
Adeus, ó fontes claras    e poços de água fria;
eu já não ouço aqui    rouxinóis ao meio-dia.
Se meu pai perguntar    quem é que me queria,
dizei que a desgraça    não é a que me guia.
Cala-te, Madalena,    lágrimas de peregrina!
Nos reinos estrangeiros    melhor água haveria.
Também há claras fontes,    poços de água fria,
e canta o rouxinol    à hora do meio-dia.
Pareces Dom Duarte!    Oh que fortuna a minha!
Tornemos ao palácio,    a dizê-lo à rainha.
Rainha e mãe, senhora,    humildo-me ao castigo;
aqui está Dom Duarte,    que vem por meu marido.
Rainha e mãe, senhora,    que pena me acompanha
de não achar meu pai,    senhor de toda a Espanha.
Rainha e mãe, senhora,    humildo-me com dor;

Otros datos:
58 não tem a quem pôr culpa, é mui cego o amor.--

Nota del editor: Os vv. 43-58 são derivados de Flérida (S1)[Flérida y don Duardos 0431].

Bibliografía:
Recogido antes de 1906. Publicada en Braga 1867a, 48-50 y RGP I 1906, ((reed. facs. 1882) 426-28 Reeditada en Redol 1964, 331-332; Costa Fontes 1997b, Índice Temático (© HSA: HSMS), pp. 214-215, S3 y RºPortTOM 2004, vol. 4, nº 1283, pp. 27-30.
[0431 Flérida y don Duardos contam.]