IGR: 0023. Versión: 95. Rima: í-o. Hemistiquios 54.
Açoreira (c. Torre de Moncorvo, dist. Bragança, Trás-os-Montes, Portugal)
Ó Grinaldo, ó Grinaldo, ó Grinaldo, meu amigo,
quanto davas tu, Grinaldo, para à noite brincar comigo?
Se eu não fora seu criado, não zombaria comigo!
Eu não to digo zombando, que eu bem deveras to digo.
Deveras ou zombando, diga-me às horas que hei-de ir.
Vai das dez para as onze, que está meu pai a dormir.
`Inda as dez não eram dadas, já Grinaldo a caminho,
com sapatos na mão para não meter rugido.
Ó quem bate à minha porta, quem arromba o meu postigo?
Sou Grinaldo, real senhora, que vem cumprir o prometido.
De noite andaram brincando, de manhã `stavam dormindo.
Levanta-se o rei da cama e foi ver o acontecido.
Foi todo apaixonado a passear pelo jardim,
por encontrar a princesa com Grinaldo a dormir.
Aqui fica o meu punhal entre vós ambos metido,
para que saibas, Grinaldo, o mal que tens cometido.
Ficou o rei a pensar, a pensar para consigo.
Para matar a Grinaldo, criei-o de pequichinho;
para matar a princesa, fica-me o reino perdido!
Ó Grinaldo, ó Grinaldo, acorda, estamos perdidos!
Vai a meu pai que te mate, tu a morte lhe hás merecido.
Donde vens, ó Grinaldo, que vens tão desprevenido?!
Venho de matar a garça que anda d` além do rio.
A garça que tu mataste foi com a princesa dormindo,
mas ela, que assim o quis, que te tome por marido.
Beijo-lhe as mãos, real senhor, por ser muito meu amigo;
só vós me podíeis dar prenda vossa por castigo!