IGR: 0023. Versión: 128. Rima: í-o+á. Hemistiquios 82.
S. Jorge (isla de S. Jorge, Açores, Portugal)
Girinaldo, Girinaldo, pajem d` el-rei tão querido,
porque não tratas de amores, quando te achas só comigo?
Porque sou vosso vassalo, senhora, zombais comigo?
Ginnaldo, Girinaldo, pois eu deveras to digo.
Vós quando quereis, senhora, que eu vá ao vosso serviço?
Das dez horas para as onze, quando meu pai está dormindo.
`Inda as dez não eram dadas, Girinaldo já erguido,
foi à porta da infanta, deu um ai muito sentido.
Donde vindes, cavaleiro, das armas tão atrevido?
Ele não é cavaleiro, nem traz armas atrevido,
é Girinaldo, senhora, quem vem ao vosso serviço.
Aferra-te a essas cortinas, vem-te cá deitar comigo.
Ainda bem não eram onze, já o rei andava erguido,
andava de sala em sala, de postigo em postigo,
a chamar por Girinaldo que lhe desse o seu vesido.
Girinaldo não me fala, que lhe terá sucedido?
Ou Girinaldo é morto, ou d` amores está rendido.
Foi-se à câmara da infanta, aonde nunca tinha ido,
com seu calçado na mão, para menos ser sentido
e os achara estar dormindo que nem mulher com marido.
Para matar Girinaldo, criei-o de pequenino,
para matar a infanta, fica o meu reino perdido.
Pegara do seu cutelo, deixa-o entre ambos metido,
com a ponta para a filha que a morte tinha merecido.
Despertara Girinaldo do sono adormecido.
Acorda, ó bela infanta, já nosso mal é sabido,
o punhal de vosso pai entre nós está metido,
com aponta para vós que a morte tens merecido.
Cal`-te, cal`-te, Girinaldo, que meu pai é meu amigo,
vai-te botar aos seus pés que ele te dará o castigo.
Se te ele mandar matar, carpir-te-ei por marido,
se ele te mandar prender, canta que hás-de ser ouvido.
Erguei-vos, bela infanta, vinde ouvir lindo cantar,
ou são os anjos no céu, ou as sereias no mar.
Pois não são anjos no céu, nem as sereias no mar,
é um triste prisioneiro que meu pai manda matar.
Dizei-me, bela infanta, se com ele queres casar?
Esse é o melhor dote que meu pai me pode dar.
Girinaldo, Girinaldo, tu foste bem atrevido,
ontem eras meu vassalo, hoje és meu genro querido,
ontem comias de parte, hoje é à mesa comigo.