IGR: 0176+0168. Versión: 42. Rima: é-a+í. Hemistiquios 90.
Carragosa (c. Bragança, dist. Bragança*, Trás-os-Montes, Portugal)
O Maio, era por Maio, e ó Abril, na Primavera,
lá se vai o capitão com seus soldados à guerra.
Trinta eram velontários e os outros quintados eram,
na dianteira de todos, um triste soldado levam.
Porque vais triste, ó soldado? Porque vais triste p`r`à guerra?
Vais triste por pai ou mãe ou gente da tua terra?
Não vou triste por pai nem mãe, que uma carta lhe eu mandera.
Se vais triste por dinheiro, muito dinheiro t` eu dera!
Não vou triste por dinheiro, dinheiro p`ra mim trouxera.
Se vais triste por cavalo, lindo cavalo t` eu dera!
Não vou triste por cavalo, que o meu cavalo voera.
Se vais triste por espada, linda espada t` eu dera!
Não vou triste por espada, que a minha de prata era,
vou triste por minha esposa que era linda e tão bela!
No dia em que casera tiraram-me d` ó pé dela.
Sete anos t` eu dou de larga, que tornes p`r`ò pé dela,
ao fim de sete anos torna, soldado, à guerra,
e traz-me de lá uma prenda dos mimos da tua terra.
Meteu a mão ao seu bolso, um cordão de ouro tirera.
Tome lá, meu capitão, a prenda que m` ela dera.
Desses mimos, ó soldado, `inda não são p`ra qualquera.
Sete e sete são catorze, p`ra ti acabou a guerra.
Montara no seu cavalo, muito contente que ele era,
lá no meio do caminho um seu amigo encontrera.
Donde vais, ó cavaleiro, triste, coitado de ti?
Vou a ver a minha esposa, há dias que a não vi.
A tua esposa já é morta, é morta, que eu bem na vi,
e as dobradas que se daram, por minhas mãos as tangi.
A caridade que se dou, por minhas mãos a parti.
Meteu esporas ao seu cavalo: Vamos a ver se é assi`.
Lá no meio do lugar uma sombra vira vir,
o cavalo se espantou e ele também se espalburiu.
Não te assustes, cavaleiro, por eu vir agora aqui,
eu sou a tua esposa que alguma vez te servi.
Então és a minha esposa e não te abraças a mim?
Os braços com que te abraçava, já os não tenho aqui,
e os olhos com que te olhava, na sepultura os meti.
E adeus, adeus, meu marido, não há vagar de estar aqui,
lá nas penas do inferno estarão à espera de mim.
Dize-me, ó minha esposa, por que causa estás ali?
Na hora da minha morte grande castigo mereci,
desqueci-me de Deus, puse o sentido em ti.
Vendera o meu cavalo, p`ra dizer missas por ti.
Nem vendas o teu cavalo, guarda-o, que sirva p`ra ti,
quantas mais missas disseres, mais perco p`r` amor de ti.
Nota del editor de RºPortTOM 2001: Por lapso os editores de Leite de Vasconcellos 1958-1960, I, consideraram esta versão de Carregosa (concelho de Oliveira de Azemeis) quando a sua proveniência deverá ser de Carragosa (concelho de Bragança).