IGR: 0045. Versión: 40. Rima: á-a. Hemistiquios 148.
S. Martinho (c. Funchal, isla de Madeira, Madeira, Portugal)
Pola veiga de Granada, el-rei moiro passeiava,
de sua lança na mão, com que pássaros matava.
Nã lhe dava polos pés, nem polas asas lhe dava,
dava lhe certo no bico, que logo los derreava.
E, nisto, lhe chegam novas, qu` Alfama lh` era tomada.
Ai Alfama, minh` Alfama, que m` estavas mal guardada,
ainda ontem dos moiros, hoje dos cristões ganhada!
Ai Alfama, minh` Alfama, a fogo sejas queimada,
s` amanhã lo sol raiar, sem de moiros ser c`roada!
E chamou por seus moiricos que lh` andavam na lavrada,
nã lhe vinham um a um, quatro, cinco, de manada.
Quem é lo aventuroso que me ganh` esta jornada?
Respondeu-lh` um moiro velho, de cem anos, menos nada.
Esta batalha, bom rei, só por vós será ganhada,
e lo perro de Rui Cid, lo tereis pela barbada,
la sua Ximena Gomes, será vossa cativada,
sua filha Don` Urraca, será vossa mancebada,
e la outra, mais chiquita, p`ra vos servir, descalçada.
Rui Cid, qu` estav` ouvindo, da torre, sua morada,
logo chamou sua filha, Dona Urraca chamada.
Veste, filha, teus brocados, d` ir à festa mais honrada,
de chapins d` oiro, não prata, vem tu, filha, bem calçada.
E já, já, põe-t` à janela, ao caminho defrontada,
enquanto vou cavalgar e cingil la minha `spada.
Detem-me, tu, lo rei moiro, qu` há-de passar na estrada,
vai, tu, palavr` em palavra, cada qual bem demorada,
cada uma delas todas, que seja d` amor tocada.
Como lh` hei falar d` amor, se d` amor eu nã sei nada?
Fala-lhe desta maneira, uma fala bem falada.
Bem apar`cido, rei moiro, nesta hor` abençoada!
Há set` anos, já set` anos, que de vós sou namorada,
já vai correndo nos oito, quero-m` ir por vós furtada.
Vestida de seus brocados, de chapins d` oiro calçada,
`stá Urraca de janela, ao caminho defrontada,
e deitando olhos ao longo, vê lo rei que vem na estrada.
E lo moiro que la viu, la saudou, bem cortejada.
Alá vos guarde, senhora, nesta hor` afortunada.
El` então, desta maneira, falou fala bem falada,
e de palavr` em palavra, cada qual bem demorada,
cada uma delas todas, era do amor tocada.
Bem apar`cido, rei moiro, nesta hor` abençoada!
Há set` anos, já set` anos, que de vós sou namorada,
já vai correndo nos oito, quero m` ir por vós furtada.
Senhora, nisso que qu`reis, andais bem aconselhada,
de tantas mulheres qu` eu tenho, só vós sois de mim amada,
sereis rainha dos moiros, em grandes festas c`roada,
de duzentos mil vassalos, tereis vossa mão beijada.
El` então lhe diz, com pena, já talvez enamorada:
I-vos daqui, meu rei moiro, nã me cuideis refalsada,
assomar vi cavaleiros que lá vem de mão armada,
com meu pai, lo Dom Rui Cid, a correr à desfilada.
Nã me temo de Rui Cid, nem de sua gent` armada,
só temo lo seu Babieca, filho da minh` égua baia,
perdi-lo numa batalha, bem lhe sinto la patada.
E lo moiro lá se vai, de carreira desfechada,
por meio duma courela, já do arado cortada.
Mal haja lo lavrador que fez tamanha lavrada!
Lo moiro sempre correndo, de carreira desfechada,
vai a caminho do rio, à barc` aí costumada.
Também mal hajas, barqueiro, que tens la barca varada!
E, na sua égua baia, de carreira desfechada,
logo se meteu ao rio, que nã tinha qu` esp`rar nada.
La mulher mãe dum só filho, ai, que mãe tão desastrada,
espora, que dele caia, por ninguém será tomada,
que lo firam, que lo matem, nã tem la morte vingada,
mas, se desta me vou salvo, oh, que desforra tirada.
No comenos vem Rui Cid, vê lo moiro ir a nado,
e, de raivoso, lh` atira, um dardo bem apontado.
Guardai-me lá, genro meu, este dardo bem guardado.
E no corpo do rei moiro, ficou lo ferro cravado.
Como guardar-te, Rui Cid, esse dardo traiçoado,
se me vai a dentro d` alma, no corpo atravessado?
Mas nã morro desta feita, que te prometo, sagrado,
varar-te c` um cento deles, sem precisar ser rogado.
Notas de RºPortTOM 2000: No verso -70 do original figura cradado e no verso -73 figura morra; foram corrigidos por se tratarem de gralhas.
Omitimos as seguintes didascálias: entre -5 e -6E cramou; entre -11 e -12E disse; entre -20 e -21E lhe disse; entre -27 e -28Pergunta ela; entre -28 e -29Responde Rui Cid; entre -51 e -52Responde lo moiro; entre -62 e -63E ia cramando; entre -68 e -69E diz; entre -70 e -71E lo moiro foi cramando, e depois de -74E morreu. Emendas propostas por Álvaro Rodrigues de Azevedo: -4bderrubava; -15bpola; -57btão funda lavrada; -71btreiçoado, e -74bsem ser preciso rogado.