IGR: 0045. Versión: 38. Rima: á-a. Hemistiquios 42.
Curopos (c. Vinhais, dist. Bragança, Trás-os-Montes, Portugal)
Bem se passeia o mourinho de calçada em calçada,
olhando para Valência, o que estava amuralhada.
Ó Valência, ó Valência, Valência foras queimada!
Quando tu eras dos mouros, eras de prata lavrada,
agora, que és dos cristãos, és de pedra mal picada.
Isto ouvia el-rei d` altas torres donde `stava,
chamou pela sua filha, chamada a Dona Bernarda.
Vai-te daí, minha filha, com costura e almofada,
entretém-me aquel` mourinho de palavra em palavra,
dá-lhe palavras d` amores, poucas, que vão bem tocadas.
Como farei, ó meu pai, s` eu d` amores não sei nada?
Fala com tua mãe, que ela disso bem usava.
Já há sete anos, mourinho, que eu por ti não puse gala.
Outros tantos há, senhora, qu` eu por ti não fiz a barba.
Vai-te daí, ó mourinho, que eu não quero ser falsa,
os cavalos [d]e el-rei meu pai já relincham na calçada.
Que cavalos terá teu pai, que cacem a minha égua baia?
Só se fôr um filho dela, que eu não sei por onde ele pára.
Esse cavalo, mourinho, é o que o meu pai montava.
Fugiu por um vale abaixo, não fugia que voava,
ao passar o rio Verde deram-lhe uma espadagada.