Doncella guerrera v111

IGR: 0231. Versión: 111. Rima: ão+á. Hemistiquios 70.

Sobral do Campo (c. Castelo Branco, dist. Castelo Branco, Beira Baixa, Portugal)

Mal hajas tu, ó mulher,    mais a tua condição!
Sete filhas que eu tive    sem nenhuma ser varão.
Cale-se aí, ó meu pai,    não me dê maldição,
porque eu, como sou mulher,    também posso ser varão.
Tens o cabelo muito forte,    por aí te conhecer-ão.
Dê-me, meu pai, seu tesouro,    que eu o deitarei ao chão.
Tens os olhos fagueirinhos,    por aí te conhece-ão.
Quando passar pelos homens    eu os deitarei ao chão.
Tens o peito muito forte,    por aí te conhecer-ão.
Dê-me, meu pai, sua cinta,    que eu os uno ao coração.
Tens o andar miudinho,    por aí te conhecer-ão.
Quando passar pelos homens    darei passo de ganhão.
Ó minha mãe, minha mãe,    que me dói o coração,
os olhos de Leonardo    são de mulher, homem não.
Leva-a tu, meu filho,    leva, leva-a contigo enfeirar,
se ela for mulher    das rendas se há-de agradar.
Oh, que lindas rendinhas    para uma dama se enfeitar!
Oh, que lindos armamentos    para quem anda a guerrear!
Ó minha mãe, minha mãe,    que me dói o coração,
os olhos de Leonardo    são de mulher, homem não.
Leva-a tu, meu filho,    leva, leva-a contigo a jantar,
se ela for mulher,    baixo se há-de assentar.
Oh, que cadeiras tão baixas    para um homem se assentar,
dê-me daí o meu capote    para mais alto ficar!
Ó minha mãe, minha mãe,    que me dói o coração,
os olhos de Leonardo    são de mulher, homem não.
Leva-a tu, meu filho,    leva, leva-a contigo a nadar,
se ela mulher for    de ti se há-de arrecear.
Da terra lá donde eu sou    nunca nadei nem vi nadar,
deite-se, senhor, à água,    que me há-de ir ensinar.
Sete anos andei na guerra,    sete anos e um Verão,
sem nunca me conhecer    o filho de um capitão.
Cartas me estão a vir,    cartas me estão a chegar,
que meu pai está morto,    minha mãe, acabar.
Quem por mulher me quiser,    a casa de meu pai me irá buscar.

Bibliografía:
Recogida por Maria José Dias Martins, antes de 1954. Publicada en Dias Martins 1954, 275-277. Reeditada en Galhoz 1987-1988, I. 487-488 y RºPortTOM2000, vol. 4, nº 1402, pp. 161-162. © Fundação Calouste Gulbenkian.