Devota de un fraile v15

IGR: 0309. Versión: 15. Rima: á-a+estróf.. Hemistiquios 78.

Alvações do Corgo (c. Santa Marta de Penaguião, dist. Vila Real, Trás-os-Montes, Portugal)

Abre-me a porta, Morena,    moreninha malfadada,
Se me não abres a porta,    não és Morena nem nada.
Como t` hei-d` abrir a porta,    ó Frei João da minha alma?
Tenho menino ao peito,    maridinho à ilharga.
Menino deita-o no berço,    maridinho ressonava.
Acordou seu marido,    com as falas qu` ela dava.
Tu que tens, ó mulher minha?    A quem dá` las tuas falas?
À mocinha da padeira,    qu` ela vai para a massada:
que nos faça o pão de leite,    que lhe bote pouca água;
que nos faça uma bola    da basta, que não da rala.
Levanta-te, ó meu marido,    vai fazer tua caçada,
que não há melhor coelho,    qu` o da fresca madrugada.
Marido s` alevantou,    p`r`à caçada caminhava.
Ela toda s` arrai`ava,    p`ra Frei João caminhava.
Dava salto como uma lebre,    pulo que nem uma cabra.
Q`ando chegou ao convento,    por Frei João perguntava.
Frei João, assim que a viu,    deixou de correr, saltava;
pola mão lhe veu pegar,    p`r`à sua cela a levava:
ia-lhe dando bom doce,    daquele qu` ela gostava;
também lhe dava bom vinho,    daquele que a ordem dava.
A bem se não encheu dela,    p`ra sua casa a mandava.
Lá no meio do caminho    seu marido encontrava.
Donde vens, minha mulher,    que tu vens tão arraiada?
Venho d` ouvir missa nova,    que Frei João a cantava.
Que missa nova é essa,    que nem os sinos tocava?
Ó marido, meu marido,    maridinho da minha alma,
a missa de Frei João    é dita à porta çarrada.
Tu que tens, minha mulher,    que tanto mudas de cor?
ou tu temes a morte,    ou tu tens outro amor.
Eu a morte não ta temo,    qu` eu dela hei-de morrer:
tenho dor dos meus meninos,    qu` outra mãe não vêm a ter!
Se tu foras boa mãe,    como devias de ser,
cuidavas nos teus meninos,    Frei João não ias ver.
Toma lá esta facada,    dada do meu coração,
que te não tornas a ver    em braços de Frei João.
Ao cabo de nove dias    Frei João a procurava:
A minha amada Morena    que nesta terra morava?
A sua amada Morena    já lá `stá na sepultura;
a morte qu` ela teve    brevemente será sua.

Otros datos:
Título original: Frei João (á-a).

Bibliografía:
Recitada por una señora de edad. Recogida en 1902. Publicada en Leite de Vasconcellos 1958-1960, I, 466-467. Reeditada en RºPortTOM 2003, vol. 3, nº 864, pp. 86-87. © Fundação Calouste Gulbenkian.