Delgadina v221

IGR: 0075. Versión: 221. Rima: á-a. Hemistiquios 88.

Tolosa (c. Nisa, dist. Portalegre, Alto Alentejo, Portugal)

`Stando dona Delgadinha    no seu jardim assentada,
com pente d` oiro na mão,    seu cabelo penteava.
Apareceu seu pai-rei,    por amores a tratava.
Sabes lá, ó mulher minha,    o que vai na nossa casa?
Nossa filha Delgadinha    por amores me tratava.
O que queres, mulher minha,    que degredo l` há-de dar?
Mete-se numa moirama    onde ela não veja nada!
Dá-se-l` água por medida,    sardinha da mais salgada.
Ao fim de oito dias    Delgadinha que assomava.
Desceu aquela ventana,    subiu a outra mais alta
onde estava a sua mãe    bordando ouro e prata.
Deus te salve, minha mãe,    ó mãe da Virgem Sagrada,
há sede, que não haja fome,    que me dê um jarro d` água!
Vai-te daqui, perra negra,    perra negra malfadada!
Há sete anos para oito    que me trazes mal casada!
Foi-se dali Delgadinha    muito triste, `esconsolada,
desceu aquela ventana,    subiu a outra mais alta
onde estavam suas manas    bordando ouro e prata.
Deus te salve, mana minha,    mana da Virgem Sagrada,
há sede, que não haja fome,    que me dê um jarro d` água.
Vai-te daqui, mana minha,    mana minha da minha alma,
se o nosso pai-rei souber,    pescoço nos degolava.
Foi-se dali Delgadinha    muito triste, `esconsolada,
desceu aquela ventana,    subiu a outra mais alta
onde estavam os seus manos,    com bolas de ouro jogavam.
Deus te salve, ó manos meus,    manos da Virgem Sagrada,
haja sede, que não haja fome,    que me dêem um jarro d` água.
Vai-te daí, mana minha,    mana minha da minha alma,
s` o nosso pai-rei souber,    pescoço nos degolava.
Foi-se dali Delgadinha    muito triste, `esconsolada,
desceu aquela ventana,    subiu a outra mais alta
onde estava o seu pai,    com cartas d` ouro jogava.
Deus te salve, ó meu pai-rei,    ó pai da Virgem Sagrada,
há sede, que não haja fome,    que me dê um jarro d` água.
Eu serei a sua filha,    serei sua namorada.
Altos, altos, meus criados,    vão dar água à Delgadinha.
O que lá chegar primeiro    tem a salvação ganhada;
o que chegar derradeiro    pescoço tem degolado.
Eles eram dois irmãos,    foram ambos à pancada.
Quando eles lá chegaram,    Delgadinha que acabava!
S. João fazia a cova,    Nossa Senhora amortalhava.
A cova onde ela ia    d` anjinhos estava cercada.
À cabeceira da cova,    uma fonte d´água clara.
O palácio de seu pai-rei    de fogo andava abrasado.
Nota de J. L. de Vasconcelos: -39b À pancada: de uma vez.    

Otros datos:
Nota del editor de RºPortTOM 2003: Omitimos o refrão Oh! Tão linda!

Bibliografía:
Recitada por una señora de edad. Recogido antes de 1931. Publicada en Leite de Vasconcellos 1958-1960, II. 77-78. Reeditada en RºPortTOM 2003, vol. 3, nº 1181, pp. 388-390. © Fundação Calouste Gulbenkian.