IGR: 0049. Versión: 140. Rima: á. Hemistiquios 64.
Faro s. l. (dist. Faro, Algarve, Portugal)
Já se lá vai Dom Dinis manhanita de Natal,
ver dar água ao seu cavalo lá para as ribas do mar.
Dom Dinis morre de amores pela infantina real.
Assim que el-rei tal soubera o mandara desterrar.
Enquanto o ruço bebia, ele se pôs a cantar.
El-rei, que à janela estava, mal o acaba de escutar,
vai-se a ter com sua filha, a linda infanta real.
Anda cá, ó filha minha, ouvir um doce cantar,
que ou é dos anjos do céu, ou das sereias do mar.
Não é, não, senhor meu pai, é bem outro esse cantar.
É Dom Dinis com saudades que se está a delatar!
É Dom Dinis, Dom Dinis, que de amor me vem falar.
Se é Dom Dinis, minha filha, eu o mando já matar,
é bem que pague co` a vida desterrado que tal faz.
Na fogueira em que ele arder, me quero eu logo queimar,
e na cova em que o meterem, também me quero enterrar.
Todos os sinos dobravam, Dom Dinis era a queimar.
Mal que a infanta ouvira os sinos, se deixa logo finar.
Mortos que eram os amantes já os lá vão a enterrar,
ele no meio da igreja, ela mesmo ao pé do altar.
Três dias eram passados, na igreja o mesmo cantar,
o cantar que el-rei ouvira lá para as ribas do mar.
Passados outros três dias, então é que era pasmar:
da campa da linda infanta nasce um formoso rosal,
da campa do cavaleiro um viçoso canavial,
e as canas tanto cresceram que em arco se iam cruzar.
Manda el-rei cortar as canas mais as rosas do altar.
Da infanta nasce uma pomba, dele um gavião real,
mas el-rei de enraivecido laços lhes mandou armar.
Voavam asas com asas para no ar se abraçar,
voavam bico com bico para no ar se beijar,
e tanto, tanto voaram, que ao céu foram a parar.