Conde Dirlos v14

IGR: 0190. Versión: 14. Rima: á. Hemistiquios 82.

São Joanico (c. Vimioso, dist. Bragança, Trás-os-Montes, Portugal)

Lá se vai o conde Flores,    à guerra! Vai guerrear!
Sete anos andou na guerra    sem a casa lhe lembrar!
Ao cabo dos sete anos    impeçara-lhe a lembrar.
Digo-te adeus, meu alferes!    meu capitão general!
Deixei a mulher mui nova    e há-de se querer casar.
Lá no meio do caminho    encontrou um bezerral,
chamara pelo pastor    e respondeu-le o zagal.
De quem são estes vitelos    que têm pão bom sinal?
São do senhor conde Flores    que à guerra foi guerrear,
e agora de Dom Francisco    se Deus os deixar lograr,
que hoje se fazem as bodas    e amanhã se vai casar.
Aperta-me essas esporas,    o passo quero alargar,
jornadinha de três dias    em uma hora se há-de andar,
e às portas do meu palácio    brevemente hei-de chegar.
Apeou-se o cavaleiro    e pôs-se a passear.
Quem és tu, ó cavaleiro,    que tão bem sabes passear?
Sou, senhora, o conde Flores,    que à guerra foi guerrear!
Se tu eras o meu filho    uma senha me hás-de dar.
Eu la darei, minha mãe    que `inda a tenho, p`ra la dar.
Dou-te as três bolinhas d` ouro    com que eu andava a jogar,
e a minha espada d` ouro    com que fui a batalhar.
Se tu eras o meu filho    outra senha me hás-de dar.
Dou-te a da minha esposa    que lhe chamam Guiomar.
A tua esposa, meu filho,    no palácio deve estar,
que hoje se fazem as bodas    e amanhã se vai casar.
Minha mãe, dê-me licença    com ela quero falar.
Não vás lá tu, ó meu filho,    olha que te hão-de matar!
Não me matam, minha mãe,    que hei-de saber-le falar.
Guarde Deus estes senhores!    Que lhe aproveite o jantar!
Peço licença à senhora    para duas falas lhe dar.
Quem sois vós, ó cavaleiro,    que tão bem sabeis falar?
Sou, senhora, o conde Flores    que à guerra fui guerrear.
Se tu és o meu marido    uma senha me hás-de dar.
Eu ta darei, Guiomar    que `inda a tenho p`ra ta dar,
O anel de sete pedras    que eu contigo reparti:
mostra-me a tua metade    pois a minha ei-la aqui!
Ó esposo da minha alma,    um abraço te vou dar!
Levantou-se Dom Francisco    com tenção de o matar.
Alto, alto, Dom Francisco!,    alto lá, não faça tal!
Alto, alto, Dom Francisco!,    não o deveis estranhar!
Que os primeiros amorzinhos    são custosos de deixar!

Otros datos:
Nota: pão (sic).

Bibliografía:
Recogido antes de 1930. Publicada en Lopes 1930, 3. Reeditada en RºPortTOM 2000, vol. 1, nº 208, pp. 374-375. © Fundação Calouste Gulbenkian.