IGR: 0366. Versión: 6. Rima: á. Hemistiquios 122.
Ponta do Sol (c. Ponta do Sol, isla de Madeira, Madeira, Portugal)
Conde Claros, com amores, nã podia descançar,
e dava pulos na cama, nem gavião a pular.
Chamava pelo seu moço, depressa, não devagar,
que lhe desse de vestir, de vestir e de calçar.
Vestiu camisa tão fina que se fechava na mão,
lavada por três donzelas, na manhã de Sã João.
Mandou selar seu cavalo, que lo não houvesse igual,
duzentas e mil campanas, à roda do peitoral,
las duzentas eram d` oiro, las mil, do branco metal.
Seu vestido de brocado, luzia que nem cristal.
La infanta, da janela, todo lo `stav` a mirar.
Mal empregado corpinho, pera com mouros brigar.
Melhor lo tenho, senhora, pera convosco brincar.
E foram p`r`ó rosal verde, ambos à sombra folgar.
Nisto vem um caçador que não houvera passar.
Escuta-me, caçador, se me quiseres `scutar,
lo que vist` aqui agora, a el-rei nã vás contar,
prata e oiro te darei, quanto possas carregar,
e darei minha sobrinha, pera contigo casar.
E também, em dote dela, las terras de Montalvar,
essas terras são tamanhas, que da serra dão na mar.
Nã quero vossa riqueza, nem sobrinha p`ra casar,
nem essas tamanhas terras, condado de Montalvar,
lo que vos ouvi e vi, a el-rei lo vou contar.
Deus vos salve, rei senhor, nesse trono de reinar,
aqui vos dou umas novas, que nã las quisera dar,
la infanta mail lo conde, ambos los vi a brincar,
à sombra do rosal verde, como nã deviam `star.
Se com verdade e secreto, lo vieras delatar,
santa palavra de rei que tença t` houvera dar,
mas pruvico lo disseste, vais por isso enforcar,
irá também conde Claros, por seu crim` a degolar.
Vem cá, tu, pajem da lança, vai la infanta chamar,
que, depressa, venha já, sua fama resgatar.
Que Deus vos salve, senhora, filha d` el-rei a reinar,
aqui vos dou umas novas, que vo-las nã qu`ria dar.
Caçador mexeriqueiro, foi a vosso pai contar,
senhora minha, que viu vós mail lo cond` a brincar,
à sombra do rosal verde, como nã deviam `star.
Lo caçador, que lo disse, vai por elo inforcar,
conde Claros, que lo fez, por elo vai degolar.
E, tocant` a vós, senhora, el-rei vos manda chamar,
que vades depressa, já, vossa fama resgatar.
Palavras não eram ditas, la infant` a caminhar,
com seus cabelos caídos, que tinha por intrançar,
seu mantéu dependurado, sem lo poder conchegar.
Afast`, afasta, vilões, caminho quero passar.
Quantos la reconheciam, todos lhe davam lugar,
quantos nã la conheceram, ficavam a perguntar.
Deus vos salve, pai e rei, nesse trono a reinar.
Como hei-d` eu ir agora, minha fama resgatar,
se, pela morte do conde, m` acabais de desfamar?
Nã posso jurar qu` é falso, iria falso jurar,
resgate da minha fama, nã no há senão casar.
Sete condes tem la corte, escolhe qual t` agradar.
Todol los outros bem podem, ir já hoj` a inforcar,
com aquele me desonrei, só aquel` me pod` honrar.
Arrenego de ti, filha, no teu tanto porfiar,
vai tomá-lo por marido, vai-te com el` já casar.
E a mim, real senhor, mandai-me vós perdoar.
Corda da forca te insine a ouvir, ver e calar.
Nota: El editor del Índice Temático publica sólo los versos 1-14 de la versión recitada por María do Passo: los versos que corresponden a Conde Claros insomne (=SGA B11) del antiguo romance cíclico, que modernamente sólo sobrevive en combinación con Conde Claros preso y/o Conde Claros en hábito de fraile (aquí, Conde Claros preso a partir del v. -15.