Conde Claros en hábito de fraile v93

IGR: 0159. Versión: 93. Rima: á. Hemistiquios 99.

Nave de Haver (c. Almeida, dist. Guarda, Beira Alta, Portugal)

Quero apostar, minha mãe,    a perder ou ganhar
que engano Mariana    antes do galo cantar.
Não apostes, ó meu filho,    nem a perder, nem a ganhar
Mariana é secreta,    não se deixa enganar.
Por secreta que ela seja,    eu voltinhas lhe hei-de dar.
Vestiu-se de donzela    e à porta lhe foi passear.
Que donzela será esta    que aqui anda a passear?
Donzela serei, senhora,    das areinhas do mar;
tenho a teia a tecer,    as faltas venho buscar.
As faltas, minha senhora,    ainda estão por dobanar.
Dobanai-as vós, senhora,    depressa, não devagar,
donzelas pelos caminhos    de noite parecem mal.
Não se dê disso, senhora,    que na minha cama dormirá.
Não se me dá de em sua cama dormir,    nem sua roupa sujar,
só se me dá dos seus criados,    que eles me hão-de criar.
Não se dê disso, senhora,    que eu os mandara fechar.
Por fechados que eles estejam,    eles voltinhas lhe hão-de dar.
A donzela de contente,    à noite não quis cear,
só estava para Mariana:    Anda, vamo-nos a deitar!
Lá para o meio da noite,    Mariana quis gritar:
Não grites, ó Mariana,    não te dês a difamar,
que na tua cama tenhas    que te há-de aproveitar.
E ela lhe pediu por favor    que não se fosse a gabar.
[. . . . . . . . . . . . . . . . . . .]    à corte se foi gabar.
Estava ali mano mais velho,    ao pai e à mãe foi contar.
Já nã há quem meu pão coma,    nem meu dinheiro queira ganhar,
que vá levar esta carta    ao conde de Montalvar.
Estava ali mano mais novo,    como mano de bênção,
pegou na carta e foi levá-la    ao conde de Montalvão.
Se o achares a comer,    deixarás a acabar;
se o achares a dormir,    deixarás o descansar;
se o achares a ir à caça,    deixarás o ir caçar;
se o achares a comer,    deixarás o acabar;
se o achares a passear,    beija a carta e vai-la dar.
Tome lá esta carta,    depressa, não devagar,
que os olhos que a anotaram,    estão fartos de chorar.
Cala-te lá, meu menino,    já te havias de calar,
com este alfange de prata,    eu já te mando matar.
Tome lá esta carta,    depressa, não devagar,
que os olhos de Mariana,    já estão fartos de chorar.
Pegou na carta e leu-a,    já a não pode acabar.
Ala, ala, meus criados,    meus cavalos a selar.
Jornadinha de oito léguas,    numa hora se há-de andar.
Vestiu-se de fradinho    e ao caminho os foi esperar.
Onde levam essa moça    que ainda vai por confessar?
Ela confessada está,    mas falta-lhe aconselhar.
Subam-na cá, para o cavalo,    que eu não me estou a apear.
Ao meio da confissão,    um beijinho lhe quis dar;
ao fim da confissão,    um risinho lhe quis dar.
Por esse risinho que dás    pareceis conde Montalvar.

Otros datos:
Nota: Apuesta ganada, vv. 1-22Galiarda y Florencios, vv. 23-26. RºPortTOM 2000 edita tanto esta versión normativa de la versión recogida en Nave de Haver, como la transcripción original del recolector, que intenta reflejar los rasgos fonéticos propios del lugar.

Bibliografía:
Recogido antes de 1957. Publicada en Reinas 1957, 427-429 (versión normativa). Reeditada en Galhoz 1987-1988, 27-28; Pinto-Correia 1987a, 444-446; Pinto-Correa 1994, 289-291 y RºPortTOM 2000, vol. 1, nº 159, pp. 301-302. © Fundação Calouste Gulbenkian.