IGR: 0159. Versión: 39. Rima: á. Hemistiquios 76.
Ribeira de Areias (c. Velas, isla de S. Jorge, Açores, Portugal)
Claralinda está doente? Vejo-a tão descorada.
Foi de um pucarinho de água que bebeu na madrugada.
Seu pai, tanto que o soube, logo a mandou sangrar.
Mandou chamar três donzelas p`ra com Claralinda estar,
donde vinha uma delas mui liberal no falar:
Claralinda está pejada, já o não pode negar.
Seu pai, quanto que o soube, logo a mandou matar.
Todos os primos e primas lá a foram visitar.
Todos os primos e primas aqui me vêm visitar;
só não há um primo de alma que se doa do meu mal,
que me vá levar uma carta a João de Gibraltar.
Respondeu-lhe o mais moço, o mais moço que ali estava:
Ó prima, aprontai a carta, quero-vo-la ir levar;
se a jornada é de dez dias, numa hora a quero andar.
Quando ele lá chegou `stavam à mesa a jantar;
arrojaram-se as cadeiras para o senhor se assentar.
Venho aqui com uma carta, não me quero assentar.
Claralinda está doente, seu pai a manda matar.
Eu não se me dá que a mate, nem que a mande matar;
dá-se-me do ventre dela, que é filho de tão bom pai.
Respondera sua mãe, a sua mãe, que ali estava:
Se isso tem algum remédio, filho, trata de lho dar.
Eu não lhe sinto remédio; que remédio lhe hei-de dar?
Despe o vestido de seda e veste hábito saial;
dize que és um clérigo, que a queres confessar.
Quando ele lá chegou já estavam p`ra matar.
Já o teatro está feito para ir a degolar.
Tate, tate, bons algozes, que eu quero aí chegar,
que ela é menina e moça, terá de que se acusar.
Primeiro lhe perguntou: Vós a quem deveis amar?
Primeiro a Jesus do céu e a João de Gibraltar.
Os senhores dão licença? Deixem-m` a ir confessar.
Ela pede sacramentos, tem tempo de se emendar.
Entram pela porta travessa, saíram pela principal.
Embarque-se, senhora, embarque-se, vamos para Gibraltar!
Fica-te embora, meu sogro, aqui não quero tornar;
toda a filha da fortuna comigo queira embarcar.
A nossa cama está feita sobre as ondas do mar.
Nota: Infanta preñada, vv 1-6.