Conde Claros en hábito de fraile v121

IGR: 0159. Versión: 121. Rima: á. Hemistiquios 85.

Lagoa s. l. (c. Lagoa, dist. Faro, Algarve, Portugal)

Estando Dona Ablançua    no seu jardim a ser`nar,
quem logo ali passaria?    Dom Carlos de Montealvar.
Oh, mas que linda menina    para comigo brincar!
Eu, sim, brincava, Dom Carlos,    mas não te havias gabar.
Juro ao corte desta espada    de tal me não gabar.
Arriba, arriba, Dom Carlos,    toda a noite a brincar!
Já era quasi manhã,    Dom Carlos dali saiu
[. . . . . . . . . . . . . . . . . . .]    e foi à praça passear.
Deus vos salve, meus senhores,    já vos trago que contar:
eu brinquei c` uma menina,    no mundo não há igual.
Estavam dois conselheiros    chegados à casa real.
Quem seria, quem não seria?    Filha d` el-rei Cardeal.
Alvíss`ras, ó meu el-rei,    que eu novas vos quero dar:
sua filha Ablançua    com Dom Carlos a brincar.
Tivesse eu lenha acolhida,    já a mandava queimar,
como não a tenho acolhida,    já a mandarei buscar.
Criados e meus criados,    os que estão ao meu mandar,
vão buscar lenha ao mato    p`r`à princesa se ir queimar.
Não se me dá que me matem    nem que me queiram matar,
que eu tenho, em meu ventre,    parte de sangue real.
Quem tivesse um criado meu    que o pão quisesse ganhar,
que uma carta me levasse    a Dom Carlos de Montealvar.
Escreve a carta, Ablançua,    que o criado te vai levar.
Se ele estiver jantando,    deixai-o vós acabar;
se ele estiver dormindo,    deixai-o vós acordar;
se ele andar passeando,    podes logo entregar.
Foi o anjo em tão boa hora    que ele andava a passear;
mal que ele pegou na carta,    logo se pôs a chorar.
Criados e meus criados,    os que estão ao meu mandar,
vão selar os meus cavalos,    não se queiram demorar,
que viagem de quinze dias,    numa noite se há-de andar.
Vestiu-se em traje de frade,    logo tratou de abalar;
quando chegou ao caminho,    a justiça que encontrava.
Arreda, justiça, arreda,    senão vos faço arredar,
que a menina que aí vem,    ainda vem por confessar.
Se vós és um confessor,    bem me podeis confessar.
No meio da confissão    um beijo lh` ele quis dar.
Alto lá, ó senhor frade,    não se queira adiantar,
quem em Dom Carlos pôs boca,    outro não se há-de gabar.
Eu Dom Carlos sou, princesa,    que vos venho aqui livrar.
Arreda, justiça, arreda,    senão vos faço arredar:
vão dizer ao cão do pai que    o venha agora buscar,
que eu monto-a no meu cavalo    e vou à praça passear.
Nota: Galiarda y Florencios, vv 1-14.    

Otros datos:
Notas del editor de RºPortTOM 2000: Omitimos a seguinte didascália: entre 22 e 23 Veio um anjo do céu mandado. Braga (1909)/Braga (1985) edita apenas 4 hemistíquios desta versão.

Bibliografía:
Recogido antes de 1901. Publicada en Nunes 1900-1901, 161-163; Athaide Oliveira 1905, (reed. facs. 198?) 327-330; RGP III 1909 (reed. facs. 1985) 431; Anastácio 1985, 121-122; Pinto-Correia 1987a, 280-282; Pinto-Correia 1994, 181-182. Reeditada en RºPortTOM 2000, vol. 1, nº 187, pp. 344-345. © Fundação Calouste Gulbenkian.