Conde Alemán v73

IGR: 0095. Versión: 73. Rima: estróf.. Hemistiquios 52.

Portugal s. l. (Portugal)

Já dá o sol na vidraça,    já lá vem o claro dia,
já o Conde d` Alemanha    com a rainha dormia.
Ninguém em casa o sabia    senão a Dona Juliana,
senão a Dona Juliana,    filha da mesma rainha.
Bem podias, Juliana,    minhas faltas encobrir,
o Conde é muito rico,    de ouro te há-de vestir.
Não quero vestidos d` ouro,    pois os tenho de damasco;
ainda tenho meu pai vivo,    já me querem dar padrasto!
As mangas desta camisa    não chegue eu a fazer,
em meu pai vindo da missa    se lho eu não for dizer.
As razões que eram ditas,    o pai que à porta chegava.
Que razões sam cá estas,    entre uma mãe e uma filha?
Que razões hão-de ser, pai,    por vergonha as não diria:
o Conde d` Alemanha    comigo brincar queria.
Cal`-te, cal`-te, ó minha filha,    busca horas de jantar,
que o Conde é menino e moço,    fá-lo-ia por brincar.
Mal o haja o seu brincar,    mais a sua brincaria,
que me agarrou num braço,    à cama me acometia.
Cal`-te, cal`-te, minha filha,    busca horas de cear,
que antes dum quarto d` hora    o Conde há-de ir a degolar.
Mal o haja Juliana,    mais o leite que mamou:
o Conde que era tão bom,    a morte que lhe causou.
Cale-se, cale-se, ó minha mãe,    não me faça arrenegar,
a morte que o Conde leva    não lha faça eu levar.
Bem o haja Juliana,    mais o leite que mamou,
menina de sete anos    dum pecado me livrou.

Bibliografía:
Recogido antes de 1960. Publicada en Leite de Vasconcellos 1958-1960, II. 494-495. Reeditada en RºPortTOM 2003, vol. 3, nº 852, pp. 72-73. © Fundação Calouste Gulbenkian.